https://journals.scientia.international/SIJHuman
Scientia International Journal for
Human Sciences
Vol. 1, 1 (2026)
Tipo: Artigo de Pesquisa | DOI: 10.56365/mxapgh32
ISSNe 3101-6650 © 2026 Os autores. Publicado por Scientia.International S.L. (Espanha).
Artigo de acesso aberto sob licença CC BY 4.0 (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0).
Traçando caminhos investigativos ibéricos a partir da Identidade
Cultural portuguesa
Rodrigo Koch
Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, Brasil
https://orcid.org/0000-0002-6719-1839
rodrigo-koch@uergs.edu.br
Carlos José Rodrigues
Universidade de Aveiro, Portugal
http://orcid.org/0000-0001-6403-6959
cjose@ua.pt
Resumo
Este texto faz uma breve revisão bibliográfica em trabalhos acadêmicos sobre a Identidade Cultural de Portugal, utilizando os
elementos que compõem tal identidade como pontos de ancoragem e partida para estabelecer os caminhos investigativos de
pesquisa de pós-doutorado em curso inicial. Tais propostas de estudo, preveem atividades de coleta de dados e de investigação
em solos português e espanhol durante o biênio 2027-28, com objetivos de compreender e analisar a Identidade Cultural de
populações diversas através das pedagogias culturais presentes nos respectivos espaços geográficos; interpretar os processos
globalizadores pós-modernos de mercantilização e espetacularização na Península Ibérica; e observar as produtividades destes
fenômenos identitários na contemporaneidade. Nos interessa conhecer a constituição e manutenção identitária portuguesa na pós-
modernidade.
Palavras-chave: Identidade Cultural; Portugal; Estudos Culturais.
Detalhes do artigo | Avaliação por pares aberta
Editado por:
Michel Goulart da Silva
Avaliado por:
Anna Juliace
Michel Goulart da Silva
Citação:
Koch, R., & Rodrigues, C. J. (2026). Traçando caminhos investigativos ibéricos a
partir da Identidade Cultural portuguesa. Scientia International Journal for Human
Sciences, 1(1). https://doi.org/10.56365/mxapgh32
Histórico do artigo
Recebido: 16/12/2025
Revisado: 02/03/2026
Aceito: 14/03/2026
Disponível: 14/03/2026
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1. Notas introdutórias e aspectos metodológicos
O campo dos Estudos Culturais tem se debruçado intensamente nas últimas décadas em investigações
sobre a Identidade Cultural de populações específicas e/ou minorias. Estas pesquisas colaboraram na
compreensão e acesso a culturas que estavam, em certa medida, oprimidas e encobertas ao grande público.
Entre vários autores que são comumente convocados pelos Estudos Culturais nestas discussões, nos apoiamos
- principalmente - em Zygmunt Bauman (2001; 2005; 2008), e Stuart Hall (1997; 2010; 2019), trazendo para
o debate as condições líquidas, descentradas e fragmentadas dos indivíduos pós-modernos em suas
constituições identitárias apontadas por estes pensadores. Também contribuem neste processo de construção
conceitual, acerca das identidades culturais, outros autores, como Anderson (2008), Canclini (2003), Debord
(2005), Lipovetsky (2016) e Steinberg (1997). Nas observações de Bauman e Hall, algumas características
marcantes que definem as sociedades contemporâneas.
[...] as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão
em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo [...]. Esse
processo produz o sujeito pós-moderno, conceitualizado como não tendo uma
identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se uma “celebração
móvel”: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais
somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam (Hall
2019, p. 9-12).
[...] estamos passando de uma era de “grupos de referência” predeterminados a uma
outra de “comparação universal”, [...]. Hoje, os padrões e configurações não são mais
“dados”, e menos ainda “autoevidentes”; eles são muitos, chocando-se entre si e
contradizendo-se em seus comandos conflitantes, de tal forma que todos e cada um
foram desprovidos de boa parte de seus poderes [...] (Bauman 2001, p.14-15).
Ainda vale acrescentar, que são muito produtivas também as análises de Hall sobre as nações.
Partindo da teoria de “Comunidade Imaginada” (Anderson 2008), o sociólogo afirma que falamos de forma
metafórica sobre uma identidade nacional, pois as mesmas não estão impressas literalmente nos genes dos
indivíduos, ou seja, não são coisas com as quais nascemos, mas são formadas e transformadas no interior da
representação. Hall destaca que uma nação é uma comunidade simbólica e, por esse motivo, tem o poder de
gerar identidade e certa lealdade.
Uma cultura nacional é um discurso - um modo de construir sentidos que influencia
e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos. [...] as
diferenças entre nações residem nas formas diferentes pelas quais elas são imaginadas
(Hall, 2019, p. 31),
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Por fim, resumidamente, o pensador estabelece cinco elementos principais que definem uma
identidade cultural nacional: narrativa da nação (eventos históricos, símbolos e rituais); possíveis origens; a
invenção de tradições; um mito fundacional; e a crença num povo originário.
Ao chamarmos Bauman para este debate, este outro sociólogo analisa as identidades pelo viés do
mundo globalizante contemporâneo e alerta que “Nossas dependências são agora de fato globais. No entanto,
nossas ações são, como antes, locais” (Bauman 2008, p.189).
Quem sabe, em vez de falar sobre identidades, herdadas ou adquiridas, estaria mais
próximo da realidade do mundo globalizado falar de identificação, uma atividade que
nunca termina, sempre incompleta, na qual todos nós, por necessidade ou escolha,
estamos engajados (Bauman 2008, p. 193).
A partir da agenda de pesquisa que ficou estabelecida através de projetos de investigação de pós-
doutorado junto aos Departamentos de Ciências Sociais, Políticas e do Território; e de Línguas e Culturas,
da Universidade de Aveiro; o objetivo deste texto é fazer uma breve revisão bibliográfica da formatação da
Identidade Cultural portuguesa, pois os elementos que compõem esta condição nos darão pistas e, servirão
de pontos de ancoragem e partida para os caminhos investigativos futuros que serão traçados para dois
projetos distintos: um - exclusivamente - em solo português; e outro, que envolve um espaço geográfico da
Península Ibérica. Estaremos ampliando as informações sobre os mesmos, na parte final deste texto.
Esta breve revisão não pretende esgotar a temática da Identidade Cultural de Portugal e, tão menos
ser uma espécie de Estado da Arte da mesma. Estaremos nos valendo para este trabalho de algumas pesquisas
selecionadas em base de dados de língua portuguesa, de acordo com a relevância dos estudos, e sua
importância e aplicabilidade em nossas investigações. Portanto, somos sabedores de que um vasto material
a ser explorado por outros pesquisadores, mas que - para nós - neste momento torna-se inviável de ser
abordado devido a sua complexidade e provável desvio de foco investigativo. Nas próximas páginas,
seguindo uma ordem cronológica das publicações, apresentamos alguns dados e considerações dos trabalhos
elencados neste primeiro movimento investigativo acerca da Identidade Cultural portuguesa.
2. Elementos que podem definir a Identidade Cultural portuguesa
De acordo com o senso comum, para o Brasil podemos apontar o Carnaval, o Futebol, a Caipirinha,
a Feijoada e a Floresta Amazônica, entre outros, como símbolos marcantes de nossa Identidade Cultural. São
elementos que definem o país de dentro e de fora e que constituem em boa medida a diversidade da população
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brasileira. Neste estudo de revisão, nos interessa conhecer e tentar definir quais são as marcas identitárias
portuguesas, para a partir das mesmas traçar caminhos investigativos futuros em solo português. Procuramos
agrupar a revisão dos trabalhos acadêmicos de forma cronológica e pelas temáticas dos apontamentos de cada
um dos elementos culturais que constituem a identidade de Portugal.
Começamos tais apontamentos e análises por três pensadores, que em certa medida, se complementam
mas também se contrapõem, pois externam posições diversificadas sobre a formação da identidade
portuguesa. Vakil (2006), descreveu um cenário distópico, no qual o pesquisador imagina um debate entre
alunos e professores sobre identidade daqui algumas décadas em qualquer escola primária da capital
portuguesa. Indiretamente ele pergunta se, deixariam de ser considerados heróis os conquistadores dos
séculos passados? O pensador tensiona esta questão trazendo para a discussão elementos que pretensamente
unificam os colonizados e os colonizadores e, que tornaram a todos falantes da língua portuguesa. Ele também
levanta questões sobre a ambiguidade dos conceitos de pátria e sugere que sejam revistos os ensinamentos
sobre colonização e descolonização, alertando sobre o crescimento de demagogias populistas que redefinem
as noções de segurança e pertencimento com plataformas políticas anti-imigração. Ao final de suas reflexões,
Vakil (2006) afirma que “a Lisboa de 2050 será uma sociedade multi-cultural, que Portugal terá uma história
portuguesa feita também de outras histórias e que a verdadeira defesa da nação passa pela qualidade da sua
democracia, não pelo securitarismo de uma identidade cultural xenófoba”.
Em conferência proferida em Elvas, em janeiro de 2004, Graça (2005) defende que Portugal foi
tomado por um sentimento de culpa a partir do processo de descolonização, iniciado em meados de 1970,
que abalou a sua identidade nacional. Em sua fala, o pesquisador procura recuperar o passado pujante dos
conquistadores e dos portugueses no contexto europeu. Graça (2005), em sua defesa da nação portuguesa,
destaca que “a Universidade, nas suas múltiplas formas de ensino superior e investigação científica, é um
factor de mudança e de desenvolvimento e inevitavelmente de reflexão nacional, o que significa que é
também um factor de consolidação da identidade nacional” (Graça 2005, p. 82). Por fim, ele comenta que
diferente de outras etnias europeias, os portugueses possuíam uma característica rara, que era a xenofilia, o
contrário da xenofobia; e que isto também construiu o país na pós-modernidade.
Com temática semelhante à de Graça (2005), cerca de uma década antes, Seabra (1994) proferiu
conferência inaugural na Sessão Solene de Abertura do Curso de Defesa Nacional 1994, que teve lugar no
Instituto de Defesa Nacional em Lisboa em 10 de Novembro de 1993. Nas palavras do conferencista, que já
havia publicado ensaio em 1990 sobre a Identidade Cultural portuguesa, foram novamente resgatados os
feitos históricos dos descobridores e a vocação ultramarina portuguesa de séculos passados, bem como o
apontamento de símbolos nacionalistas que constituem uma certa identidade cultural portuguesa, além da
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obra de Camões.
Portugal foi o pioneiro do que hoje se chama o interculturalismo, praticando-o antes
de outros o virem a teorizar. Um dos elementos essenciais da comunicação com
outros povos foi para os portugueses a língua, que, sendo a sua pátria matricial, tal
como a assumiu Pessoa, se tornou uma ‘pátria de várias pátrias’ [...] (Seabra 1994,
pp.130-131).
Nesse discurso, o palestrante encerrou suas palavras considerando os jovens portugueses pouco
engajados e interessados na preservação de uma identidade nacional; fato este, que se soma a alguns dos
conceitos de Hall e Bauman já apresentados na seção inicial deste texto. No ensaio do início dos anos 1990,
José Augusto Seabra, explora a dualidade da cultura portuguesa, vendo-a não apenas como uma identidade
nacional com traços específicos, mas também como uma abertura ao universalismo, manifestada na sua
história de expansão e no seu legado cultural pelo mundo. O conceito de ‘personalismo universalista’ sugere
que a identidade portuguesa se define pela sua própria especificidade e individualidade (“personalismo”), ao
mesmo tempo em que se projeta e se expande para o mundo e o todo (“universalista”), influenciando e sendo
influenciada por outras culturas. “Quanto mais buscamos as raízes do Português, mais na essência do nacional
descobrimos o universal” (Seabra 1990, p. 95). Nesse ensaio, o pensador elenca alguns elementos que
constituem a identidade cultural portuguesa, como a vocação ultramarina e descobridora/conquistadora, o
sentimentalismo e saudosismo, a fraternidade, e o idioma: “Entre esses valores, o mais universal é a língua
que falamos e escrevemos e que hoje é comum a sete países independentes e livres, com uma diversidade de
culturas e mesmo de civilizações, com as suas literaturas e oraturas, através das quais comunicamos,
convivemos e cooperamos” (Seabra 1990, p. 100).
Entre diversos trabalhos que citam mudanças históricas e sociais em Portugal a partir de década de
1960 e na virada do milênio, selecionamos o de Barreto (2002), que entre outros aspectos destaca que “Um
país tradicionalmente de emigração transformou-se num país de imigração: eis talvez uma das mais
dramáticas mudanças ocorridas em Portugal nas últimas décadas” (p.8). Sem apontar diretamente que traços
e marcos da identidade nacional se alteraram - e continuam se alterando - sob efeitos da globalização, Barreto
(2002) faz breve reflexão sobre os fluxos migratórios, adotando posicionamentos ambíguos. Neste estudo,
nos interessa e nos provocam as análises feitas sobre a “nova” juventude portuguesa, justamente por ser esta
a população das futuras investigações em solos português e ibérico.
Com o desenvolvimento da “cultura jovem” e da categoria etária e social “jovem”,
nasceu um novo segmento geracional activo, eleitor, consumidor e produtor: os
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jovens. Com a evolução da economia e do sector da educação, as jovens gerações
adiaram por vários anos a sua entrada na vida profissional. Estão presentes nas
escolas secundárias e nos estabelecimentos de ensino superior, que entretanto
cresceram em número e em dimensão. Praticamente isentos de serviço militar,
deixaram de ter diante de si esse vínculo à administração e ao serviço público. Com
direito a voto aos 18 anos (desde 1976), são objecto de especial atenção por parte dos
partidos políticos e das autoridades. São atraídos pelas juventudes partidárias para
colaborar nas campanhas políticas. São solicitados pelo comércio e pela publicidade.
Têm, nos locais de divertimento, nos espaços públicos culturais e na vida nocturna
(bares, discotecas, etc.) os seus pontos de encontro, protagonizando uma marca
indelével nas cidades (Barreto 2002, p. 10).
Complementando, o estudo de Pires (2007) se valeu de metodologias de observação participante que
nos inspiram e, também nos interessam para os futuros caminhos investigativos. A pesquisadora procurou
definir a identidade cultural da vila portuguesa de Barrancos, localizada em uma zona de fronteira com a
Espanha, verificando como esta comunidade construiu e reconstrói periodicamente sua relação com os outros,
sejam estes portugueses, espanhóis ou de outras etnias. Pires (2007) considera que “[...] uma identidade
cultural de carácter híbrido, num processo complexo de (re)construção identitária” (Pires 2007, p.128), pois
são raras as famílias desta vila que não falam tanto o idioma português quanto o espanhol e por sua vez, criam
uma língua própria do local. Há mitos de origem e diásporas constantemente convocadas pelo poder público
para reforçar os traços identitários, que também estão bastante presentes nas festas da cultura local, como por
exemplo a maior delas: corrida de touros de morte - motivo de divergências nos contextos locais e nacionais
(Pires 2007).
Em outro trabalho que nos interessa, Arroteia (2010) estudou o fluxo das migrações portuguesas
recentes pelo mundo e procurou estabelecer questões de identidade e cidadania desses grupos nos
movimentos diaspóricos. Entre várias questões do inquérito, para nossas análises futuras, vale destacar os
símbolos de Portugal identificados pelos emigrantes portugueses entrevistados nesta investigação do
pesquisador. Os mais citados pelos participantes do estudo, na ordem, foram: a família, o idioma, os símbolos
nacionais (bandeira e hino), a arte, a gastronomia, o futebol, a religião e o fado.
Para além das pesquisas citadas, a dissertação de Simões (2010) buscou a identidade cultural
portuguesa no design de produtos. A autora entende que entre os países de língua portuguesa “não é de todo
possível analisar a identidade cultural presente no design industrial de todos os países devido à falta de
informação disponível [...]” (p.4) e, conclui que
[...] o design lusófono primazia a cores como o branco, castanho e preto, a madeira
é o seu material de eleição e as formas dos seus produtos são simples e racionais. A
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sua taxa de inovação não é elevada mas produzem produtos de fácil utilização e
desprovidos de marcações gráficas (Simões, 2010, p. 111).
Mas, este trabalho traz poucos acréscimos para nossos interesses sociológicos acerca da Identidade
Cultural de Portugal, pois se trata de um recorte de investigação científica muito específico.
Sousa (2011) explora como o legado histórico e mítico do rei Dom Dinis é construído e mantido no
imaginário da cidade de Leiria, influenciando a sua identidade cultural local. Na busca de estabelecer um
mito fundacional de Portugal, a autora afirma que a Expansão’ e os ‘Descobrimentos’ são marcos
fundamentais na constituição do mito português, sendo a obra Os Lusíadas, de Luís de Camões, o maior
construtor da arquitetura mitogênica e poética da nacionalidade. Nas análises da investigação que conduziu,
Sousa (2011) destaca que:
D. Dinis marcou a História de Portugal e o imaginário dos portugueses, e tal pode ser
visto na quantidade de mitos que rondam este rei. Este rei e o seu reinado foram
encarados como resultado da providência, [...]. Encarado como um intermediário
entre os seres divinos e a existência humana, ao rei poeta são atribuídas as virtudes e
os actos premonitórios de criação de uma grande nação e uma grande pátria: [...]
Embora ainda distante dos Descobrimentos, é atribuído a este rei a criação de todas
as condições para que a grande epopeia se realizasse. Foi no seu reinado que começou
o nascimento da Pátria e a grandeza do futuro. Foi D. Dinis que preparou a elevação
do império português [...] (Sousa, 2011, p.8)
Nas considerações finais de seu estudo, Sousa (2011) contextualiza e identifica pontos turísticos na
cidade de Leiria com fortes marcas identitárias no mito de Dom Dinis.
Somando-se aos nossos futuros caminhos investigativos, Baptista (2013) resgata momentos históricos
em seu trabalho, criando definições identitárias de cada período, e reforçando a data da Revolução dos
Cravos, em 25 de abril de 1974, como ponto de virada cultural na construção desta identidade portuguesa.
Ao analisar a filmografia que trata de concepções de identidade dos portugueses, a pesquisadora, revela que
quando são convocadas memórias do Império de Portugal, a identidade desta nação é remetida às figuras do
“Aventureiro-Colonizador” ou do “Herói-Colonial”, também vinculadas a um “gênio civilizador” em
contraponto aos negros africanos, numa visão preconceituosa, caracterizados como selvagens e passíveis de
domesticação ou adestramento: “[...] agora num clima tropical, constroem em pleno mato [...], as suas ‘casas
portuguesas’ [...] apresentando-se como um povo essencialmente agrícola e rural, trabalhador e honesto, que
se ‘pega’ à terra, edificando aldeias, vilas e cidades, que replicam, o mais fielmente possível, a Metrópole”
(Baptista 2013, p. 274).
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Nestes contextos, o negro - ocupando a função do ‘outro’ - vai aparecer na filmografia e literatura
como referencial para definir a identidade do português colonizador. Segundo Baptista (2013), a ideia inicial
é posteriormente substituída pela do “Colono-Emigrante”, com contornos de uma “[...] condição de
superioridade econômica, social e religiosa face ao negro, condição essencial para que seja possível continuar
a aportuguesar a África, merecendo respeito e até veneração dos nativos pelos brancos e recolhendo a sua
boa vontade e inclinação para a assimilação” (Baptista, 2013, p. 277). Este novo personagem português por
vezes vai se juntar aos movimentos independentistas, tendo sua identidade cultural, em alguns casos,
questionada, renegada e recalcada. É um ser retratado de forma exótica e encarado por seus conterrâneos
como teimoso, simples, afável e ignorante. Nas análises de Baptista, uma última figura da identidade cultural
portuguesa são os “Retornados-Colonialistas”, ou seja, portugueses de família, mas de origem colonial,
portanto nascidos e com cidadania de países conquistados pelo Império Português. São ‘exilados de sítio
nenhum’, nas palavras da pensadora.
Para a delimitação dos caminhos investigativos, também nos interessam trabalhos como os de
Brambilla (2015) e Gevehr, Berti & Matte Junior (2020), no qual os autores investigaram aspectos culturais
e identitários da Região do Rio Douro e seus vínculos com o turismo e a academia. Caracterizada como
patrimônio cultural, nesta região os elementos primordiais que constituem sua identidade são as paisagens, a
arquitetura, a gastronomia (basicamente alicerçada no vinho regional), a arte e os sítios arqueológicos.
Brambilla (2015) ao discutir a identidade cultural, entre outros autores dos Estudos Culturais, também
convoca e se vale das teorias de Hall no debate. Ao final da sua tese, ela tensiona o conflito entre a
manutenção de tradições culturais e a necessidade de um enoturismo consumista:
[...] enquanto alguns autores consideram que o turismo nas áreas rurais têm tornado
os locais exclusivamente espaços de consumo, podemos compreender que o turismo
rural é apenas uma das influências externas que afetam a zona rural e seus moradores,
que não se pode impedir de viver o presente da melhor forma possível, e nem se
pode impedir os processos de transformações desejados pelas comunidades rurais.
Assim, consideramos que o enoturismo no Douro tem transformado as zonas rurais
da região, tornando-as espaços de lazer, e, ao mesmo tempo, fortalecendo as
identidades locais [...] (Brambilla, 2015, p.205)
Gevehr, Berti & Matte Junior (2020) citam também, a inserção e atuação da Universidade de Trás-
os-Montes e Alto Douro (UTAD) na comunidade local com pesquisas e atividades dedicadas à viticultura.
Acrescentamos ainda, a pesquisa de Marchi (2015) que se debruçou em investigar e analisar a
formação de uma identidade portuguesa vinculada aos movimentos políticos de extrema direita a partir de
marcos históricos do pós-Segunda Guerra e seus desdobramentos no cenário contemporâneo pós-moderno
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pelo viés midiático do Movimento de Ação Nacional (MAN). Após fazer um resgate histórico de fatos pelas
décadas de 1960, 1970 e 1980, o pesquisador detalha as publicações do MAN numa escalada evolutiva
antirracial. manifestos contra a imigração, pela primazia de emprego aos brancos, e incitando o fim da
ajuda, e o ódio aos estrangeiros. Nas conclusões de seu estudo, Marchi inicia afirmando que O povo
português, nação antiga no extremo ocidente da Europa, apresenta um profundo apego à sua identidade”
(Marchi 2015, p.439) e, contextualiza - novamente através da história das conquistas portuguesas na América
e na África - a miscigenação gradativa que ocorreu em Portugal através dos fluxos migratórios dos
dominados. “Os sinais da crise de identidade revelaram-se particularmente naqueles meios políticos e
ideológicos que fizeram do radicalismo identitário a sua bandeira” (Marchi 2015, p.440). Indiretamente, o
elemento unificador da Identidade Cultural portuguesa, neste estudo, é o idioma.
Sobral (2016), na obra Portugal, Portugueses: Uma Identidade Nacional, no primeiro capítulo busca
definir uma identidade individual de cada português, convocando elementos e marcos culturais, como as
famílias tradicionais e centenárias, e a língua entre outros e, como esta última é o eixo educador-condutor de
uma identidade nacional portuguesa. “[...] estudamos mais aprofundadamente o português do qualquer outra
língua, mais os escritores portugueses do que quaisquer outros. A história de Portugal ocupa um lugar central
na nossa apreensão da História” (Sobral, 2016, p.9). O autor se refere também às experiências emotivas e
estéticas, do cotidiano português e aponta um certo pessimismo social como característica destas identidades.
No que interessa às nossas análises futuras, Sobral cita o futebol como fonte de alegria coletiva; e elenca
ainda hábitos comportamentais reducionistas como o atraso aos compromissos ou a falta de responsabilidade
dos políticos com suas promessas: “[...] todos os grupos nacionais possuem estereótipos sobre si próprios e
sobre os outros, que são inerentes à construção de uma identidade” (Sobral, 2016, p.11). Por fim, neste
capítulo inicial, o autor lança o debate sobre o nacionalismo, apontando que no mínimo dois tipos de
nacionalismos em Portugal, que não consensuais: um cívico e um étnico, que podem se complementar ou se
contrapor na formatação das identidades. Nos capítulos seguintes, a exemplo de outros pensadores citados,
Sobral (2016) faz uma viagem histórica pelo passado de Portugal e como fatos pontuais contribuíram na
construção de personagens e de uma certa identidade portuguesa. Ele destaca que a melhor forma de se
conhecer um português é vivenciar o que é ser português.
Silva (2018) ao questionar como abordar a identidade nacional portuguesa, afirma que:
[...] a definição da identidade de um qualquer coletivo social faz-se em dois planos
complementares: o que aproxima os seus elementos constitutivos numa certa unidade,
fazendo-os parte de uma mesma totalidade; e o que distingue a totalidade assim
formada das outras com que efetiva ou virtualmente se relaciona. No primeiro plano
esem causa a formação de um nós; no segundo, a sua distinção face aos outros,
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face a eles (Silva, 2018, p. 10).
O autor busca definir os portugueses tanto do ponto de vista interno, como externo, distinguindo de
outros povos e nações. “A identidade não é apenas o que se é, é o que se diz que é muitas vozes, muitos
dizeres, logo, vários sujeitos e várias representações” (Silva, 2018, p.18). Nos movimentos iniciais de seu
estudo, Silva (2018) resgata o passado histórico português das grandes conquistas (“descobrimentos”) e
navegações pelos continentes americano e africano, elencando estes personagens como definidores de uma
identidade nacional/cultural de Portugal. Ou seja, uma forte relação com os mares e com estratégias
geopolíticas, que por sua vez provocaram alquimias culturais híbridas. Trazendo o debate para a
contemporaneidade, o autor conclui que na pós-modernidade, Portugal adquiriu traços “ocidentalocêntricos”
e, talvez por isso, o melhor e maior elemento de unificação da identidade cultural portuguesa seja o idioma.
A dissertação de Ferreira (2021), discute a identidade cultural da Geração Z portuguesa e como esta
tem sido moldada pelos mecanismos midiáticos, tornando-a americanizada. A autora afirma que “A
identidade cultural é um aspeto que se vai desenvolvendo consoante o meio em que uma pessoa está inserida;
a família, a escola, as experiências, a língua, as tradições são apenas alguns dos aspetos que têm impacto na
identidade cultural” (Ferreira 2021, p.6). Na pesquisa desenvolvida, Ferreira destaca que os jovens
portugueses moldam suas identidades de forma híbrida e multicultural, criando uma base pacífica de convívio
entre a cultura local e a global. Assim como em outros estudos elencados, de forma indireta, ela aponta o
idioma como uma das marcas da identidade cultural de Portugal. O breve estudo de Castro & Ribeiro (2022)
com estudantes do ensino superior de Bragança, ratifica as considerações de Ferreira (2021), tendo na língua
um forte elemento de definição da identidade cultural em tempos pós-modernos.
3. Considerações, desdobramentos e caminhos investigativos futuros
Neste breve levantamento que realizamos sobre a Identidade Cultural portuguesa em trabalhos
acadêmicos recentes, percebemos que o mais citado dos elementos, que constituem marcos identitários de
Portugal, é a língua portuguesa; que transcende épocas e ocupa posição ambígua, aproximando culturas e por
vezes estabelecendo quem são os ‘outsiders’ e dominados. Já os chamados “heróis” do descobrimento - por
vezes caricaturados -, a literatura, o fado, os símbolos nacionalistas (bandeira, hino, vestimentas), e a religião,
nas palavras dos pensadores analisados, se remetem a um passado recente, mas superado, e que tenta ser
resgatado por movimentos políticos da direita em campanhas anti-imigração e, em certa medida, xenofóbicas.
Por outro lado, o futebol, o enoturismo, o turismo gastronômico, cultural e consumista, estão vinculados aos
contextos globalizadores, cosmopolitas, multiculturais e pós-modernos. elementos explícitos, como os
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citados, e, também, elementos implícitos e psicossociais que constituem a Identidade Cultural portuguesa. A
fraternidade, a hospitalidade, o sentimentalismo e a saudade, e os modos de vida fora das metrópoles são
exemplos disso. Acreditamos que para uma análise mais profunda da temática da Identidade Cultural
portuguesa em tempos pós-modernos, seja necessária uma imersão in loco no território, possibilitando
observações participantes inspiradas na etnografia - algo que está previsto no projeto de pós-doutoramento
em Portugal. Esta condição também é sugerida e indicada por Sobral (2016). Fica evidente em diversos dos
estudos analisados e, vale lembrar, que a data de 25 de abril de 1974, marco da Revolução dos Cravos, é
ponto de virada na construção de uma identidade cultural portuguesa.
Conforme mencionamos anteriormente, esta breve revisão que fizemos neste texto servirá como
pontos de ancoragem e partida para dois projetos de pesquisa de pós-doutorado junto à Universidade de
Aveiro. O primeiro deles, vinculado ao Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território, intitulado
“Produtividades da celebridade do futebol Cristiano Ronaldo na (des)(re)construção identitária cultural de
crianças e jovens portugueses”, e que tem como objetivos compreender e analisar a Identidade Cultural das
infâncias e juventudes portuguesas futebolizadas a partir do ídolo CR7; investigando a construção e
constituição das identidades, e interpretando os processos globalizadores de mercantilização e
espetacularização da modalidade em Portugal, e as pedagogias culturais presentes.
No segundo projeto - “A Identidade Cultural das Comunidades do Rio Douro (Portugal) / Duero
(Espanha)” -, junto ao Departamento de Línguas e Culturas, pretendemos, igualmente, compreender e
analisar a Identidade Cultural, porém das Comunidades do Rio Douro, interpretando os processos
globalizadores de mercantilização do turismo, e as pedagogias culturais presentes nesse espaço geográfico;
analisando as produtividades e transformações destes processos identitários na contemporaneidade. Para
ambas propostas de investigação, quando em solo português, na primeira etapa das pesquisas (cerca de 60 a
90 dias) serão feitas observações relacionadas à construção e constituição das pedagogias culturais que
contribuem para as (des)(re)construções das Identidades Culturais vinculadas às crianças e aos jovens
portugueses futebolizados e seguidores da celebridade Cristiano Ronaldo; bem como, das comunidades que
vivem nas margens do Rio Douro. Na segunda etapa, serão realizados questionários e entrevistas com jovens
aficionados em futebol e com representantes das comunidades do Rio Douro (Portugal)/Duero (Espanha).
Durante o período do pós-doutorado, também serão avaliados os discursos midiáticos presentes na Península
Ibérica relacionados à temática da Identidade Cultural que contribuem para alimentar estes circuitos.
Posteriormente serão desenvolvidas as análises do material coletado para elaboração de artigos científicos e,
futuramente, possível publicação de livros. A metodologia empregada neste estudo terá vertentes pós-
estruturalistas com vínculos nos Estudos Culturais, se valendo também e ainda de Análise de Discurso.
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Nesta breve revisão, encontramos trabalhos que são inspiradores e que servem de ponto de partida
para os futuros caminhos investigativos em território português. Vale citar o texto de Barreto (2002) e a
dissertação de Ferreira (2021) com informações significativas acerca da Geração Z portuguesa que servirão
de base inicial para os estudos das (des)(re)construções identitárias de jovens que seguem a celebridade do
futebol Cristiano Ronaldo; além da tese de Brambilla (2015) e do artigo de Gevehr, Berti & Matte Junior
(2020) no que tange à coleta de dados que pretendemos realizar com as populações que compõem a região
do Rio Douro, com objetivo de definir uma identidade cultural local deste espaço geográfico. Reforçamos
que esta revisão não pretendia esgotar a temática da Identidade Cultural de Portugal e que as pesquisas
selecionadas por nós estavam relacionadas com sua relevância e aplicabilidade em nossas investigações.
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