Scientia International Journal for Human Sciences 14 of 17
mantener el poder. Le faltó para ello, entonces, la intervención dirigente del
proletariado, con su programa y su partido, y la alianza obrera y campesina (Gilly,
1994, p. 403–404).
Contudo, no Brasil de Fernandes, a discussão sobre a revolução burguesa passa pelo entendimento da
peculiaridade do capitalismo dependente. Desse patamar de apropriação da realidade é que se pode formular
as táticas que transitem das ações dentro da ordem para ações contra a ordem. Por esse motivo, localizar o
fulcro da ação dos trabalhadores é fundamental, o que exige a descrição a seguir:
De fato, ele se vincula a uma tentativa de vanguardas da esquerda de tomar pé na
dinamização das transformações dentro da ordem vinculadas à revolução burguesa
(essas transformações foram descritas na Europa como ‘revoluções’ e são elas que
marcam o avanço da revolução burguesa: a revolução agrária, a revolução urbana, a
revolução industrial, a revolução nacional e a revolução democrática) (Fernandes,
2015, p. 101).
Aqui, Fernandes indica o arco de mudanças sociais engendradas pela lógica burguesa da revolução,
em sua matriz clássica — ou seja, nas revoluções na França, na Inglaterra e nos EUA. Dessa maneira, a
diferenciação das formas e do grau do desenvolvimento em outros países se faz importante, pois os tempos
históricos não se repetem; os mecanismos de ordenamento político, social, econômico e cultural são outros,
são peculiares. Se a teoria social não apreender essas realidades objetivamente, incorrerá em graves equívocos
científicos e, por desdobramento, em equívocos de caráter prático. Para a classe trabalhadora, isso tem
consequências ainda mais graves, pois desses erros derivam derrotas políticas com custo humano
incalculável. Ou seja, a teoria social crítica não pode se dobrar a ilusões burguesas.
Nesse sentido, Fernandes faz uma forte afirmação quanto às proposições socialistas moderadas (em
total consonância com as críticas de Gilly) alinhadas com a convivência pacífica entre países em transição
socialista e países capitalistas:
Por consequência, ela não contribuiu para adequar a teoria das classes sociais e da
luta de classes às condições concretas dos países em situação neocolonial ou de
capitalismo dependente; e contribuiu muito mal para colocar as reivindicações dos
trabalhadores do campo e da cidade numa linguagem especificamente socialista e
revolucionária. Também desaguou, portanto, na órbita do reformismo burguês,
embora não se possa subestimar sua importância quanto à mobilização política de
setores da população pobre e trabalhadora sistematicamente excluídos da cultura
cívica e da sociedade civil, bem como para a impregnação nacionalista e radical-
democrática de alguns setores das classes médias ou mesmo das classes altas
(Fernandes, 2015, p. 101).