https://journals.scientia.international/SIJHuman
Scientia International Journal for
Human Sciences
Vol. 1, 1 (2026)
Tipo: Artigo de Pesquisa | DOI: 10.56365/gsp8xq81
XXXX-XXXX © 2026 Os autores. Publicado por Scientia.International S.L. (Espanha).
Artigo de acesso aberto sob licença CC BY 4.0 (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0).
Cidade, trabalho e segregação urbana: apontamentos a partir de
Engels
Michel Goulart da Silva
Instituto Federal Catarinense, Blumenau, Brasil
https://orcid.org/0000-0002-3281-3124
michelgsilva@yahoo.com.br
Resumo
Neste ensaio, são analisados alguns dos elementos discutidos por Engels em seu estudo A situação da classe trabalhadora na
Inglaterra”. Para tanto, discute-se aspectos referentes às condições materiais vividas pelos trabalhadores e sua situação de emprego.
Procura-se tanto relacionar com o processo econômico e social mais amplo, expresso principalmente na revolução industrial, como
com aspectos que permanecem no processo de exploração do proletariado mesmo no século XXI. O texto se vale de bibliografia
que dialoga com elementos apresentados no texto de Engels, em especial autores marxistas que desenvolveram suas pesquisas nos
séculos XX e XXI.
Palavras-chave: Engels; Proletariado; Revolução Industrial; Capitalismo.
Detalhes do artigo | Avaliação por pares aberta
Editado por:
Michel Goulart da Silva
Avaliado por:
João Luis Binde
Waldenilson Teixeira Ramos
Citação:
Silva, M. G. da. (2026). Cidade, trabalho e segregação urbana: apontamentos a
partir de Engels. Scientia International Journal for Human Sciences, 1(1).
https://doi.org/10.56365/gsp8xq81
Histórico do artigo
Recebido: 16/12/2025
Revisado: 28/01/2026
Aceito: 05/02/2026
Disponível: 09/02/2026
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1. Introdução
Considerar atual uma obra como A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, originalmente
publicada em 1844, pode parecer uma contradição, na medida em que esse é um estudo realizado por
Friedrich Engels acerca de um contexto social particular vivido há mais de um século e meio. Considerando-
se a interpretação de que a classe trabalhadora deixou de existir ou de que o marxismo faliu como método
explicativo da realidade, certamente essa obra da juventude de Engels estaria superada. Contudo, evidencia-
se a atualidade dessa obra se o capitalismo for entendido como um modo de produção da vida ainda vigente
ou compreender-se que o conteúdo da lógica de exploração dos trabalhadores, apesar de mudanças na forma,
permanece semelhante àquela descrita por Engels nos anos 1840.
Essa atualidade pode ser apontada a partir do fato de que, embora escrita em um momento de
elaboração inicial das análises de Marx e Engels, a obra aponta, por meio da descrição da situação concreta
da classe trabalhadora inglesa, elementos que subsidiam o desenvolvimento das análises econômicas
associadas ao materialismo histórico, em especial no desenvolvimento das explicações acerca das
contradições e da dinâmica do capitalismo. O livro de Engels se constitui em um estudo empírico detalhado
da situação da classe trabalhadora inglesa, sendo fundamental ao mostrar tanto as contradições do capitalismo
no século XIX como elementos vigentes ainda no século XXI. Devemos a Engels
[...] a chave analítica da conceitualização de classe trabalhadora, cujo ponto de
partida é a compreensão do papel central exercido pelo proletariado na produção e
reprodução da vida social, bem como em sua efetiva presença na luta entre as classes
que caracteriza a sociedade capitalista (Antunes, 2021, p. 94).
O capitalismo e a exploração dos trabalhadores seguem existindo, mas, nesse processo, “vem
complexificando seus instrumentos de dominação, suas formas de acumulação, provocando profundas
alterações tanto nas formas de produção quanto na composição das classes sociais” (Antunes, 2021, p. 96).
Contudo, apesar dessas mudanças, ocorridas com maior intensidade nas últimas décadas,
[...] as contradições do sistema capitalista não diminuíram. Na verdade, elas têm-se
intensificado sobremaneira, concomitantes a um profundo processo de exploração da
força de trabalho que é marcado pela precarização das condições dos trabalhadores
assalariados (Soares, 2010, p. 36-7).
Um fator que chama a atenção nesse livro de Engels é a cuidadosa análise das fontes relatos orais,
documentos diversos, imprensa, entre outros utilizadas, mostrando a preocupação com a análise rigorosa
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da realidade, central no desenvolvimento do materialismo histórico. Engels (2008, p. 41) afirmou, nesse seu
estudo sobre o operariado da Inglaterra, que “o conhecimento das condições de vida do proletariado é, pois,
imprescindível para, de um lado, fundamentar com solidez as teorias socialistas e, de outro, embasar os juízos
sobre a sua legitimidade”.
O sentido do termo classe sempre gerou bastante controvérsia, ainda que estudos como o de Engels
tornem esse entendimento bastante óbvio. Nesse sentido, de um ponto de vista metodológico, como o fez
Engels, a classe deve ser analisada “como uma formação social e cultural, surgida de processos que só podem
ser estudados quando eles mesmos operam durante um considerável período histórico” (Thompson, 2018, p.
13). Pode-se entender os trabalhadores como aquela classe explorada pelos detentores dos meios de produção,
produzindo mais valor, ou seja, que vende sua força de trabalho para a burguesia, sejam industriais,
comerciantes, banqueiros ou mesmo outros segmentos das classes dominantes.
Neste ensaio, são analisados alguns dos elementos discutidos por Engels em seu estudo A situação da
classe trabalhadora na Inglaterra. Para tanto, discutem-se aspectos sobre as condições materiais vividas
pelos trabalhadores, sua situação de emprego e exploração e mesmo sua saúde. Procura-se, ademais, tanto
relacionar com o processo econômico e social mais amplo, expresso principalmente na revolução industrial,
como com aspectos que permanecem no processo de exploração do proletariado mesmo no século XXI.
2. Os trabalhadores na revolução industrial
Um dos aspectos que Engels estuda, em sua obra, são as cidades que se constituíram em grandes
núcleos industriais, passando por transformações econômicas, políticas e sociais. Engels entende que a
revolução industrial transformou a sociedade em seu conjunto, com a organização da economia passando
das pequenas oficinas caseiras para as grandes indústrias. No período anterior à introdução das máquinas, a
fiação e a tecelagem das matérias-primas eram realizadas na própria casa do trabalhador. Segundo Engels
(2008, p. 45-6)
[...] essas famílias tecelãs viviam em geral nos campos vizinhos às cidades e o que
ganhavam assegurava perfeitamente sua existência porque o mercado interno quase
o único mercado era ainda decisivo para a demanda de tecidos e porque o poder
esmagador da concorrência, que se desenvolveu mais tarde com a conquista de
mercados externos e com o alargamento do comércio, não incidia sensivelmente
sobre o salário.
Com a introdução do tear mecânico e, posteriormente, de outras inovações tecnológicas, os
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trabalhadores foram agrupados em grandes plantas industriais, diminuindo, paulatinamente, a quantidade de
trabalhadores artesanais. Engels (2008, p. 48) aponta que “tornou-se possível produzir muito mais fio: se
antes um tecelão ocupava sempre três fiandeiras, não contava nunca com fio suficiente e tinha de esperar
para ser abastecido, agora havia mais fio do que o número dos trabalhadores ocupados podia processar”. Os
trabalhadores, diante da instalação de grandes indústrias, se viram obrigados a trabalhar para outras pessoas,
vendendo sua força de trabalho nas grandes fábricas que surgiam. Segundo Engels (2008, p. 50),decidiu-se
nos principais setores da indústria inglesa a vitória do trabalho mecânico sobre o trabalho manual e toda a
sua história recente nos revela como os trabalhadores manuais foram sucessivamente deslocados de suas
posições pelas máquinas”.
Nesse processo de dinâmica da produção capitalista, centralizam-se os capitais e a produção, ou seja,
a indústria concentrou a propriedade em poucas mãos. Essa nova forma de produção demandava enorme
quantidade de capitais, com os quais criou gigantescos estabelecimentos, arruinando a pequena burguesia
artesã e colocando a seu serviço as forças naturais, expulsando do mercado os trabalhadores manuais isolados.
Uma das consequências desse processo de transformação na organização e divisão do trabalho foi o
surgimento das grandes concentrações urbanas. Segundo Engels (2008, p. 64), “o grande estabelecimento
industrial demanda muitos operários, que trabalham em conjunto numa mesma edificação; eles devem morar
próximos e juntos e, por isso, onde surge uma fábrica de médio porte, logo se ergue uma vila”. Engels
(2008, p. 65) aponta que nas grandes cidades, progressivamente, “a centralização da propriedade atingiu o
mais alto grau”, fazendo com que “nelas existe uma classe rica e uma classe pobre, desaparecendo dia a
dia a pequena burguesia”.
Em obras posteriores, o tema é retomado tanto por Marx como por Engels. Marx, em particular, em
uma das passagens mais conhecidas de O capital, analisa a chamada acumulação primitiva, um processo
histórico de acumulação de capital. Segundo Marx, “o processo que cria a relação capitalista não pode ser
senão o processo de separação entre o trabalhador a propriedade das condições de realização de seu trabalho”,
convertendo “os produtores diretos em trabalhadores assalariados” (Marx, 2013, p. 786). Nessa análise,
aponta que “a expropriação da terra que antes pertencia ao produtor rural, ao camponês, constitui a base de
todo o processo” (Marx, 2013, p. 787). Formou-se, assim, uma massa de trabalhadores desempregados,
muitos dos quais se viam na pobreza, sendo forçado à mendicância ou mesmo ao roubo. Essa situação do
proletariado é assim descrita por Marx (2013, p. 805-6):
Expulsos pela dissolução dos séquitos feudais e pela expropriação violenta e
intermitente de suas terras, esse proletariado inteiramente livre não podia ser
absorvido pela manufatura emergente com a mesma rapidez com que fora trazido ao
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mundo. Por outro lado, os que foram repentinamente arrancados de seu modo de vida
costumeiro tampouco conseguiam se ajustar à disciplina da nova situação.
Convertiam-se massivamente em mendigos, assaltantes, vagabundos, em parte por
predisposição, mas na maioria dos casos por fora das circunstâncias.
Portanto, como aponta Engels em sua obra clássica, o êxodo rural levou uma grande quantidade de
camponeses a migrarem para áreas empobrecidas das grandes cidades, onde se aglomeravam os
trabalhadores. Observa-se que nesse processo a
[...] intranquilidade social e política geral refletia não apenas pobreza material como
também empobrecimento social a destruição dos antigos estilos de vida sem que
fossem substituídos por qualquer coisa que os trabalhadores pobres pudessem
considerar como um equivalente satisfatório (Hobsbawm, 2011, p. 85).
Esse processo encontra seus desdobramentos ainda hoje, considerando que talvez a principal marca
do mundo do trabalho contemporaneamente seja a precariedade. Contudo, embora “seja uma marca global e
esteja presente nas economias capitalistas centrais, a precariedade atinge de forma diferenciada os países que
se industrializaram mais tarde e que têm um grau mais elevado de dependência em relação a essas economias
centrais” (Mattos, 2019, p. 77). Observa-se, além disso, que setores sociais mais atingidos, como
mulheres e jovens, e países de industrialização mais tardia são um solo ainda fértil para a precarização das
relações de trabalho” (Mattos, 2019, p. 82).
3. Os trabalhadores nas grandes cidades
No livro de Engels, as chamadas grandes cidades”, principalmente Londres, com seus 2,5 milhões
de habitantes, considerada então “capital comercial do mundo”, tem um grande destaque. Engels (2008, p.
68-9) via nesta cidade,
[...] em todas as partes, indiferença bárbara e grosseiro egoísmo de um lado e, de
outro, miséria indescritível; em todas as partes, a guerra social: a casa de cada um em
estado de sítio; por todos os lados, pilhagem recíproca sob a proteção da lei; e tudo
isso tão despudorada e abertamente que ficamos assombrados diante das
consequências das nossas condições sociais.
Essa situação não ocorria também em Manchester, Leeds e outras grandes cidades, onde, segundo
Engels (2008, p. 69), trava-se uma guerra social” em que “as armas de combate são o capital, a propriedade
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direta ou indireta dos meios de subsistência e dos meios de produção”. O ônus dessa situação recaia sobre os
trabalhadores. O desemprego era uma condição permanente entre as populações pobres, pois, “se tem a sorte
de encontrar trabalho, isto é, se a burguesia lhe faz o favor de enriquecer à sua custa, espera-o um salário
apenas suficiente para o manter vivo” (Engels, 2008, p. 69). Em uma situação de maior desespero, “se não
encontrar trabalho e não temer a polícia, pode roubar; pode ainda morrer de fome, caso em que a polícia
tomará cuidado para que a morte seja silenciosa para não chocar a burguesia” (Engels, 2008, p. 69).
Nessas grandes cidades poderiam ser encontrados “bairros de má fama”, onde estavam concentrados
os trabalhadores. De forma geral, era designada para os trabalhadores “uma área à parte, na qual, longe do
olhar das classes mais afortunadas, deve safar-se, bem ou mal, sozinho” (Engels, 2008, p. 70). Esses bairros
tinham “as piores casas na parte mais feia da cidade; quase sempre, uma longa fila de construções de tijolos,
de um ou dois andares, eventualmente com porões habitados e em geral dispostas de maneira irregular”
(Engels, 2008, p. 70). Nesses bairros “as ruas não são planas nem calçadas, são sujas, tomadas por detritos
vegetais e animais, sem esgoto ou canais de escoamento, cheias de charcos estagnados e fétidos” (Engels,
2008, p. 70). No livro descreve-se com detalhes bastante vivos a situação vivenciada pelos trabalhadores.
Engels aponta em sua obra alguns casos noticiados pela imprensa que descrevem situações bastante
dramáticas vividas pelas pessoas que moram nessas áreas. Um desses casos trata de dois meninos que
“famintos, haviam roubado numa loja um pedaço de carne bovina meio cozida, que devoraram
imediatamente” (Engels, 2008, p. 74). O juiz, recolhendo mais informações sobre o caso, descobriu que,
“viúva de um antigo soldado, que depois servira à polícia, a mãe dos meninos, após a morte do marido, vivia
na miséria com os dois filhos” (Engels, 2008, p. 74). Descreve-se então a situação de uma família, constituída
por seis crianças, que vive “literalmente empilhada” em um cômodo minúsculo, sem móveis, e com pouco
que comer. Conforme descreve Engels (2008, p. 74), “a pobre mãe contou que, no ano anterior, vendera a
cama para comprar comida; os lençóis, deixara-os empenhados na mercearia em suma entregara tudo em
troca de pão”.
Essas são tão-somente situações ilustrativas, havendo alguns trabalhadores em situações um pouco
melhores, bem como outros em situações ainda piores. Havia, por exemplo, em Londres, cerca de 50 mil
pessoas que não tinham onde morar. Os alojamentos pagos estavam, segundo Engels (2008, p. 75), “cheios
de cama, de alto a baixo: num quarto, quatro, cinco e seis pessoas, quantas caibam e, em cada cama,
empilham-se quatro, cinco ou seis pessoas, também quantas caibam sadias ou doentes, velhos e jovens,
homens e mulheres, sóbrios e bêbados, todos misturados”. Os que não têm como pagar esse tipo de
alojamento dormem em qualquer lugar, nas esquinas, sob uma arcada, num canto qualquer onde a polícia
ou os proprietários os deixem descansar tranquilos” (Engels, 2008, p. 75). Diante desse quadro, Engels (2008,
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p. 115) apontava que
[...] as grandes cidades são habitadas principalmente por operários, já que, na melhor
das hipóteses, um burguês para dois, muitas vezes três e, em alguns lugares, quatro
operários; esses operários nada possuem e vivem de seu salário, que, na maioria dos
casos, garante apenas a sobrevivência cotidiana.
Engels mostrava em detalhes as condições vividas pelo proletariado, inclusive seus locais de moradia.
Segundo sua descrição, as casas
[...] estão mal localizadas, são mal construídas, malconservadas, mal arejadas, úmidas
e insalubres; seus habitantes são confinados num espaço mínimo e, na maior parte
dos casos, num único cômodo vive uma família inteira; o interior das casas é
miserável: chega-se mesmo à ausência total dos móveis mais indispensáveis (Engels,
2008, p. 115).
Engels, mostrando outro aspecto fundamental de sua obra, também destaca temas relacionados à
saúde dos trabalhadores. Em seu estudo, associava o adoecimento às adversidades “a que os operários estão
expostos em razão das flutuações do comércio, do desemprego e dos salários miseráveis em tempos de crise”
(Engels, 2008, p. 141). Para Engels, essa situação trazia graves consequências para a saúde dos trabalhadores:
Acontece com frequência que, acabando o salário semanal antes do fim da semana,
nos últimos dias a família careça de alimentação ou tenha apenas o estritamente
necessário para não morrer de fome. É claro que semelhante modo de vida pode
originar toda sorte de doenças; quando as enfermidades chegam, quando o homem
cujo trabalho sustenta a família e cuja atividade física exige mais alimentação e, por
conseguinte, é o primeiro a adoecer , quando esse homem adoece, é então que
começa a grande miséria (Engels, 2008, p. 115).
Engels também problematizou o abuso do álcool entre os operários, entendido como forma de consolo
e lazer, diante da necessidade de suportar a desumanização causada pelo seu próprio trabalho. Engels
chamava a atenção para a questão do alcoolismo, relacionado isso à situação a que estavam submetidos os
trabalhadores:
Todas as ilusões e tentações se juntam para induzir os trabalhadores ao alcoolismo.
A aguardente é para eles a única fonte de prazer e tudo concorre para que a tenham à
mão. O trabalhador retorna à casa fatigado e exausto; encontra uma habitação sem
nenhuma comodidade, úmida, desagradável e suja; tem a urgente necessidade de
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distrair-se; precisa de qualquer coisa que faça seu trabalho valer a pena, que torne
suportável a perspectiva do amargo dia seguinte. Fica acabrunhado, insatisfeito,
sente-se mal, é levado à hipocondria; esse estado de ânimo se deve principalmente às
suas más condições de saúde, à sua alimentação e é exacerbado até o intolerável
pela incerteza de sua existência, pela absoluta dependência do acaso e por sua
incapacidade de pessoalmente fazer algo para dar alguma segurança à sua vida. Seu
corpo enfraquecido pela atmosfera insalubre e pela alimentação requer
imperiosamente um estimulante externo; a necessidade de companhia pode ser
satisfeita numa taberna, porque não há nenhum outro lugar para encontrar os amigos
(Engels, 2008, p. 142).
Esse cenário de crescimento da população, aumento da exploração e da pobreza e desgaste físico e
mental dos trabalhadores são ainda um traço inerente ao capitalismo. No século XIX, observa-se que, “com
a expressiva expansão do capitalismo, em sua nova fase industrial, o proletariado não avança
quantitativamente, em proporção exponencial, mas também qualitativamente” (Antunes, 2021, p. 92). Esses
traços do capitalismo vêm sendo analisados pela historiografia produzido posteriormente à obra de Engels.
No contexto de início de desenvolvimento da industrialização, “as cidades e as áreas industriais cresciam
rapidamente, sem planejamento ou supervisão, e os serviços mais elementares da vida da cidade fracassaram
na tentativa de manter o mesmo passo” (Hobsbawm, 2013, p. 317). Nesse processo, “o desenvolvimento
urbano foi um gigantesco processo de segregação de classe, que empurrava os novos trabalhadores pobres
para as grandes concentrações de miséria alijados dos centros de governo e dos negócios, e das novas áreas
residenciais da burguesia” (Hobsbawm, 2013, p. 318).
4. Concorrência e emprego
Outro ponto, abordado por Engels nessa obra e que, posteriormente, seria destacado no conjunto das
produções marxistas, tem a ver com o que aparece no texto como concorrência, ou seja, “a expressão mais
completa da guerra de todos contra todos que impera na moderna sociedade burguesa” (Engels, 2008, p. 117).
Essa guerra “não se trava apenas entre as diferentes classes da sociedade, mas também entre os diferentes
membros dessas classes”, ou seja, “os operários concorrem entre si tal como os burgueses” (Engels, 2008, p.
117). Dessa forma, segundo Engels (2008, p. 117-8), “o tecelão que opera um tear mecânico concorre com o
tecelão manual; o tecelão manual desempregado ou mal pago concorre com aquele que está empregado ou é
mais bem pago e procura substituí-lo”.
Pode-se descrever com mais detalhes a situação do proletariado, que se encontra, nas palavras de
Engels (2008, p. 118), “desprovido de tudo”, afinal, na sociedade capitalista, “a burguesia se arrogou o
monopólio de todos os meios de subsistência, no sentido mais amplo da expressão”, ou seja, “aquilo de que
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o proletariado necessita, só pode obtê-lo dessa burguesia, cujo monopólio é protegido pela força do Estado”.
Essa situação se reflete inclusive na educação dos filhos. Segundo Engels (2008, p. 119), “ao operário fabril
é preciso garantir um salário que lhe permita educar os filhos para um trabalho regular mas apenas o
suficiente para que não possa dispensar o salário dos filhos e não faça deles algo mais do que operários”.
O capital encontra também mecanismos para diminuir os salários, o que passa pelo emprego do
trabalho infantil e feminina. Engels (2008, p. 119) aponta que
[...] numa família em que todos trabalham, cada um pode contentar-se com um
pagamento proporcionalmente menor e a burguesia, com vistas na redução dos
salários, aproveitou-se largamente da oportunidade, propiciada pela mecanização, de
empregar mulheres e crianças.
Portanto, a exploração do trabalho se de forma intensa e mesmo cruel. Segundo Engels (2008, p.
119), o salário “acaba por nivelar-se numa média, com base na qual uma família em que todos trabalham
vivem razoavelmente bem, ao passo que aquela que conta com poucos membros empregados vive bastante
mal”. O operário termina por se submeter a essa lógica, mesmo tendo de morar em um lugar pior ou mesmo
passar dificuldades para sustentar a si mesmo e a sua família. Com isso, a burguesia consegue o número de
operários necessários para garantir o funcionamento de suas indústrias, mas, segundo Engels (2008, p. 119),
[...] se mais operários que aqueles que à burguesia interessa empregar, se, ao
término da luta concorrencial entre eles, ainda resta um contingente sem trabalho,
esse contingente deverá morrer de fome, porque o burguês só lhe oferecerá emprego
se puder vender com lucro o produto de seu trabalho.
Engels apresenta aqui, a discutir a situação da falta de emprego, de forma ainda bastante inicial, uma
das ideias fundamentais expostas posteriormente em O capital:
[...] se a procura por operários cresce, seu preço sobe; se diminui, seu preço cai; e se
a procura cai a ponto de um certo número de operários não ser vendável, eles ficam
como que em estoque e, como não há emprego que lhes forneça meios para subsistir,
morrem de fome (Engels, 2008, p. 119).
Essa é uma primeira tentativa de apresentar o que viria a ser chamado de exército industrial de
reservas. Marx (2013, p. 707) afirmava, em O capital, que essa “população trabalhadora excedente é um
produto necessário da acumulação ou do desenvolvimento da riqueza com base capitalista”, constituindo “um
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exército industrial de reserva disponível, que pertence ao capital de maneira tão absoluta como se ele o tivesse
criado por sua própria conta”.
Esse processo de constituição de um setor do proletariado em busca de emprego permanece sendo um
elemento estruturante no capitalismo. Nessa realidade, “o estímulo ativo da competição entre trabalhadores
ao longo do espaço também tem trabalhado em favor da vantagem capitalista” (Harvey, 2006, p. 57).
Observa-se, dessa forma, a
[...] capacidade do capital de fragmentar, de dividir, de diferenciar, de absorver, de
transformar e mesmo de exacerbar antigas divisões culturais, de produzir
diferenciações espaciais, de mobilizar geopoliticamente, no âmbito da
homogeneização geral produzida pelo trabalho assalariado e pela troca no mercado
(Harvey, 2006, p. 52).
Engels, em sua obra, percebe que o trabalho (ou o trabalhador, ou a força de trabalho, não tanta
clareza acerca disso no texto) também é uma mercadoria, inserida no mercado capitalista. Engels consegue
desenvolver essas conclusões justamente por conta da observação empírica da situação dos operários, suas
dificuldades e, principalmente, a relação entre as duas classes fundamentais no processo de produção de
valor, a burguesia e o proletariado.
5. Engels e sua obra na atualidade
Essas elaborações formuladas por Engels mostram-se atuais a partir de diferentes aspectos. Primeiro,
porque demonstra a situação dos trabalhadores ingleses em período determinado, evidenciando sua dinâmica
de lutas e se constituindo em um importante documento da situação social e política que antecedeu
importantes conquistas dos trabalhadores, como redução da jornada de trabalho, proibição do trabalho
infantil, entre outras. Em segundo lugar, a obra de Engels pode ser utilizada como referência para se analisar
as mudanças e permanências nas condições da classe trabalhadora, entre as quais a situação de marginalização
urbana e sua participação incipiente enquanto força politicamente organizada nas diferentes fases e processos
da revolução industrial.
Um terceiro aspecto tem relação com o fato de que o livro de Engels aponta elementos centrais acerca
do funcionamento do capitalismo, como a concorrência entre as diferentes classes e suas próprias
contradições, sejam possuidoras ou não dos meios de produção. Pode-se, assim, compreender elementos das
transformações ocorridas no capitalismo, ao longo dos últimos dois séculos, bem como s permanências nessa
forma de produção e reprodução da vida humana. Pode-se compreender, ademais, a partir da análise dos
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fundamentos do capitalismo analisado por Engels, as formas de produção do trabalho e a produção do valor,
comparando esses aspectos com o que ocorre na sociedade contemporaneamente.
Destaca-se também o fato de que essa foi a primeira análise empírica das contradições do capitalismo,
feita a partir do método que viria a ser aperfeiçoado e conhecido como materialismo histórico. Na obra de
Engels são apresentados fundamentos das análises de O capital, como valor da força de trabalho, leis de
acumulação, exército industrial de reserva, entre outros pontos. Sem o aprofundamento conceitual exposto
posteriormente, o método utilizado por Marx em sua obra-prima aqui é aplicado pela primeira vez. Por outro
lado, ainda que de forma incipiente, elementos que viriam a ser bastante utilizados em estudos históricos,
como os relatos orais e a imprensa, estão presentes de forma consistente nessa obra de juventude de Engels.
Essa obra de Engels constitui-se em um clássico para quem quer conhecer a história da classe
trabalhadora e tomar contato com o processo de elaboração do marxismo, especialmente no que se refere ao
processo de exploração do trabalho, a situação à qual os trabalhadores são submetidos e, principalmente, de
que forma organizam sua reação contra a exploração capitalista.
Referências
Antunes, R. (2021). Engels e a descoberta do proletariado. In: Curso livre Engels: vida e obra. São Paulo:
Boitempo.
Engels, F. (2008). A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Boitempo.
Harvey, D. (2006). Espaços de esperança. 2ª ed. São Paulo: Loyola.
Hobsbawm, E. (2011). Da revolução industrial inglesa ao imperialismo. 6ª ed. Rio de Janeiro: Forense.
Hobsbawm, E. (2013). A era das revoluções: Europa 1789-1848. 32ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
Marx, K. (2013). O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, vol. 1.
Mattos, M. B. (2019). A classe trabalhadora: de Marx ao nosso tempo. São Paulo: Boitempo.
Silva, M. G. (2010). Trabalho e segregação urbana: apontamentos a partir de Engels. História e-História.
Soares, J. L. (2010). Friedrich Engels e a situação da classe trabalhadora ontem e hoje. Antítese, nº. 9, p. 20-
42.
Thompson, E. P. (2018). A formação da classe operária inglesa. 9ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra.