Scientia International Journal for Human Sciences 7 of 15
que garanta alguns interesses econômicos das classes dominadas, sempre dentro dos limites do sistema, que
não coloque a ordem em xeque, desde que sejam compatíveis com a dominação hegemônica das classes
dominantes.
Portanto, a luta de classes na sociedade capitalista tem como desdobramento a possibilidade das
classes dominadas terem atendidos alguns de seus interesses, colocando alguns limites à classe dominante,
em que o Estado é pressionado “[...] pela luta, política e econômica, das classes dominadas, porém isso
significa, simplesmente, que o Estado não é um instrumento de classes, que é o Estado de uma sociedade
dividida em classes” (Poulantzas, 2019, p. 194).
Essa contribuição teórica sobre o Estado capitalista e as possibilidades dele atender, sob a pressão e
luta das classes dominadas, a certas demandas e exigências políticas e econômicas, permite
compreendermos como as políticas educacionais são organizadas no país, em especial da educação
profissional técnica de nível médio, que, como foi analisado desde o primeiro capítulo, é expressão das
lutas entre os interesses de classe, que se alteraram historicamente, em diferentes conjunturas.
Essa é mesma base para a análise sobre as influências da reforma do ensino médio, das novas
concepções de formação dos/as trabalhadores/as, na perspectiva da Indústria 4.0, e das resistências a tais
projetos, em que a educação brasileira vem sendo orientada hegemonicamente pelas políticas neoliberais,
contra as quais emergem alternativas propostas pela classe trabalhadora.
No caso brasileiro, as políticas educacionais neoliberais passaram a ser hegemônicas na década de
1990, consolidaram-se através de movimentos de coerção a partir do Estado, mas também a partir de um
amplo movimento de um “complexo processo de construção de hegemonia” (Gentilli, 1996), que
transformou a ideologia neoliberal no grande referencial para a elaboração das políticas educacionais, em
relação direta com a reestruturação produtiva, o desemprego em massa, a privatização dos serviços
públicos, a redução do orçamento público e a aplicação de reformas educacionais subordinadas às agências
financeiras internacionais que marcaram aquela década.
O uso de políticas públicas neoliberais para reformar a educação, pode parecer num primeiro
momento contraditório, ao se tratar da organização do setor educacional pelo Estado, no neoliberalismo,
que visa reduzir a presença governamental. No entanto, ao ser analisada de forma sistemática, identifica-se
que, para a execução da sua agenda, o Estado cumpre um papel central, na formulação e implementação de
políticas educacionais neoliberais, a partir dos interesses da classe dominante (Leher; Motta, 2012).
A transição para a hegemonia neoliberal na educação após a década de 1990 ocorreu assentada em
ao menos duas características estruturais que permeiam historicamente o campo educacional no país.