https://journals.scientia.international/SIJLLA
Scientia International Journal for
Linguistics, Letters and Arts
Vol. 1, 1 (2026)
Tipo: [Artigo de Pesquisa] | DOI: 10.56365/sng6m558
XXXX-XXXX © 2026 Os autores. Publicado por Scientia.International S.L. (Espanha).
Artigo de acesso aberto sob licença CC BY 4.0 (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0).
Percepções sobre Rueda de Casino: diálogos entre Brasil, Cuba e Noruega
Bruno Blois Nunes1*, Mônica Corrêa de Borba Barboza2, Bernt Rygg3
1Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria, Brasil, https://orcid.org/0000-0002-2462-9562
2Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria, Brasil, https://orcid.org/0000-0002-7764-4459
3SalsaNor, Oslo, Noruega, ORCID não informado
* Autor correspondente: Bruno Blois Nunes, bruno-nunes.bn@ufsm.br
Resumo
Neste artigo discorremos sobre uma dança de origem cubana chamada Rueda de Casino. A partir da perspectiva das três pessoas
autoras, apresentamos um recorte no qual se unem três pontos de vista oriundos de experiências em diferentes partes do mundo e
que envolvem a prática desta dança e seu ensino. O conjunto das percepções compartilhadas nos permite apontar o caráter lúdico,
inclusivo e educativo desta dança que tem como premissas a integração entre praticantes, o desenvolvimento de empatia, a atenção
ao coletivo e a colaboração. Tais aspectos encantam ao mundo e a quem se inicia neste fazer. Conclui-se que essa dança que se
origina de uma prática de lazer e entretenimento apresenta grande potencial artístico e pedagógico e pode ser utilizada em diferentes
contextos e abordagens.
Palavras-chave: Dança de Salão; Rueda de Casino; SalsaNor’s Rueda Congress.
Detalhes do artigo | Avaliação por pares aberta
Editado por:
William Jônatas Vidal Coutinho
Hudson do Vale de Oliveira
Avaliado por:
Anna Juliace
Juliana Porto Machado
Citação:
Nunes, B. B., Barboza, M. C. B., & Rygg, B. (2026).
Percepções sobre Rueda de Casino: diálogos entre Brasil,
Cuba e Noruega. Scientia International Journal for
Linguistics, Letters and Arts, 1(1), Artigo ID.
https://doi.org/10.56365/sng6m558
Histórico do artigo
Recebido: 16/12/2025
Revisado: 05/02/2026
Aceito: 27/02/2026
Disponível: 28/07/2026
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1. Introdução
Esse artigo discorre sobre a Rueda de Casino, prática social de origem cubana, trazida neste texto pelo
olhar de três profissionais que se relacionam com esta manifestação e atuam em distintos contextos. Os
professores brasileiros Bruno Blois Nunes e Mônica Barboza são docentes no Ensino Superior e atuam no
Curso de Dança-Licenciatura, da Universidade Federal de Santa Maria. Bruno Blois, mais especificamente,
dedica-se ao estudo das danças de salão com ênfase nas Ruedas de Casino. Bernt Rygg é norueguês, professor
de Rueda de Casino e um dos organizadores de um evento internacional dessa prática de dança que ocorre
uma vez por ano. A escrita deste texto coincidiu com o período em que a professora Mônica Barboza
desenvolvia seu estudo de pós-doutoramento em Havana, Cuba, onde permaneceu durante o ano de 2025.
Assim, é possível inferir que cada autor agrega ao artigo sob uma perspectiva distinta e, portanto, diante das
vivências culturais de cada um.
Para que se possa entender as três percepções sobre Rueda de Casino que serão apresentadas ao longo do
artigo, entendemos que é importante discutir a ideia de cubanidade como modo de vida cubano e traçar um
panorama histórico sobre como as Ruedas evoluíram ao longo do tempo. Inicia-se pelo primeiro.
Segundo Ortiz (1940, pp. 165-6, tradução nossa):
Não basta à cubanidade ter em Cuba o berço, a nação, a vida e a postura; ainda falta ter
consciência. A cubanidade plena não consiste apenas em ser cubano devido a alguma das
contingências ambientais que cercaram a personalidade individual e forjaram suas condições;
também são necessárias a consciência de ser cubano e a vontade de querer sê-lo.
1
García e Zanella (2017, p. 206) mencionam que as imigrações para o território cubano “contribuíram para
hibridização cultural, para a condição sincrética da cubanidade”. Essa mescla de povos, fez com que a
identidade cubana fosse constituída por influências e expressões de outros povos. Perpassa a história cubana,
desde o movimento que gerou as lutas pela independência, um forte sentimento nacionalista que envolve a
valorização da própria cultura e é oposto à colonização e ao imperialismo, dimensões que se consolidariam
no século XX e constituem a cubanidade (Martínez Martínez et al. 2024; Sánchez Ortega et al. 2013).
As Ruedas de Casino são um fenômeno cultural muito presente na atualidade da vida do povo cubano. De
acordo com Borges e Sardiñas (2012), a origem e forma de dançar em círculo das Ruedas, sugere duas
possibilidades: as coreografias realizadas nos bailes de quinze anos cubanos e a contradanza criolla
2
(Borges
1
No original: “No basta para la cubanidad tener en Cuba la cuna, la nación, la vida y el porte; aún falta tener la conciencia. La
cubanidad plena no consiste meramente en ser cubano por cualquiera de las contingencias ambientales que han rodeado la
personalidad individual y le han forjado sus condiciones; son precisas también la conciencia de ser cubano y la voluntad de quererlo
ser”.
2
A contradanza criolla de origem cubana fez sucesso com o nome de habanera que foi adotado futuramente (Sublette, 2004).
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& Sardiñas, 2012) que engloba passos de diferentes danças cujas movimentações são cantadas por um líder
3
(Borges & Sardiñas, 2012). Sua prática pode ocorrer em posição fechada (posición cerrada) que os
dançarinos ficam de frente, posição aberta (posición abierta) quando os praticantes estão virados para o
centro da roda e, em alguns momentos, sem contato com seu par, podendo se direcionar para várias direções
(Nunes, 2021).
Balbuena Gutierrez (2022) explica que a partir do triunfo da revolução socialista, ocorrida em 1959, uma
série de mudanças sociais aconteceram no país e estes se relacionam muito intensamente com o
desenvolvimento das Ruedas de Casino. Um exemplo importante trazido pela estudiosa, foi a criação do
Consejo Nacional de Cultura no ano de 1961. Esta instituição recebeu a importante tarefa de atuar em prol
de estudar, retomar e difundir a cultura nacional, em suas diferentes manifestações. Outro papel importante
do Conselho foi conduzir o processo de formulação de uma política nacional de ensino de Arte.
No bojo desse movimento, nacionalizaram-se muitos clubes e salões de baile, a maioria entregue a
entidades sindicais de trabalhadores. Com isso, foram criados os Círculos Sociales Obreros (CSOs) e neles
desenvolveram-se projetos voltados a lazer da população que agora não estava mais dividida (pelas condições
sociais ou origem étnica), mas sim, conviviam nesses espaços onde se “possibilitou o intercâmbio de saberes
culturais e formas de sentir e expressar o movimento corporal com maior liberdade criativa” (Balbuena
Gutierrez, 2022, seção Cosmoescena). Nestes centros começou-se a realizar atividades em forma de matinées,
os bailables”, nas quais as juventudes da época se divertiam aos finais de semana, experienciando os
variados bailes de salão nacional. Ali surge uma “nova geração de casineiros”, explica Balbuena Gutierrez
(2022, seção Cosmoescena) e com isso chega-se a um momento de grande difusão das Ruedas. Estes
encontros proporcionaram a convivência comunitária e familiar reforçando o espírito de irmandade de cada
bairro. Cada Círculo Social Obrero foi imprimindo uma forma própria de expressar-se por meio desta dança.
Outros movimentos importantes citados por Balbuena Gutierrez (2022) nesse período foram a criação da
Escuela Nacional de Arte, o surgimento e formação dos profissionais instrutores de Arte e de duas
companhias fundamentais para o processo de difusão da cultura e identidade nacionais, a Danza Nacional de
Cuba e o Conjunto Folklórico Nacional. Ambas as cias influenciaram o surgimento de outras agrupações e
favoreceram a presença cênica das manifestações populares entre as quais as Ruedas.
Na Escuela Nacional de Danza, o movimento de valorização e sistematização das danças nacionais
também aconteceu, incorporando-se nos programas de estudos os bailes de salão nacionais e mais
especificamente as Ruedas de Casino, nos anos 1970. Ao mesmo tempo, Balbuena Gutierrez (2022, seção
Cosmoescena) relembra que o trabalho desenvolvido pelo Movimiento Artistas Aficionados promoveu um
amplo processo de democratização à arte levando-a a “operários, campesinos, estudantes e o povo em geral”,
3
Também pode ser chamado de líder, director, guía, capitán (Nunes, 2021).
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por meio do trabalho realizado nas Casas de Cultura (situadas nos bairros e espalhadas em todo país). Dentre
as manifestações trabalhadas, os instrutores de Arte ensinavam e estimulavam as Ruedas de Casino.
Balbuena Gutierrez (2022) ressalta que aos poucos, ao longo do tempo, começaram a ser incorporados
gestos e movimentos característicos dos carnavais habaneros, da Rumba, das movimentações de adoração
aos orixás e de outras religiosidades originárias de cultos africanos e do sincretismo afro-hispânico e das
danças de matrizes franco-haitiana. Na parte musical também se incorporam elementos sonoros originários
destas manifestações afrodiaspóricas, como a inserção de alguns instrumentos de percussão, por exemplo. Os
textos das canções, muitas vezes, aludem a práticas religiosas e eventos do cotidiano da população. Como
vemos, esta prática tem forte influência negra como toda cultura cubana, desde sua gênese. Esse movimento,
segundo Babuena Gutierrez (2022) vai ser mais visível a partir dos anos 1990.
Em uma explanação compartilhada por Balbuena Gutiérrez (2022, seção Cosmoescena), verificamos que
entre os anos 1979 e 1985, um importante programa de televisão intitulado Para Bailar, colaborou com o
estímulo, a valorização e a preservação dos bailes populares cubanos, “feito que influenciou igualmente na
motivação das pessoas praticantes em aprender os passos básicos e assim alcançar um nível de interpretação
mais diverso e criativo”. O mesmo artigo cita outro programa televisivo, este desenvolvido nos anos 1990,
chamado Para Bailar Casino, que segundo a publicação, contribuiu como um “grande empurrão para a
criação de novas rodas de casino em nível municipal e nacional” (Balbuena Gutiérrez, 2022, seção
Cosmoescena).
No âmbito da investigação acadêmica, destaca-se o trabalho realizado no Instituto Superior de Arte (ISA),
conjugado com os estudos realizados pela Escuela Nacional de Danza, que mais tarde estariam envolvidos
no evento de caráter internacional Baila em Cuba no ano de 2006. O programa deste evento, “contou como
prato principal o ensino de Casino, porém incluiu como forma de expandir o conhecimento do universo das
danças cubanas a nível global, toda a cadeia de bailes de salão sociais” (Balbuena Gutierrez, 2022, seção
Cosmoescena). Essa manifestação, como toda prática popular, segue em constante movimento, com a criação
de novas figuras e hibridizações culturais (Balbuena Gutierrez, 2022) .
Ao longo dos anos, a Rueda saiu da ilha caribenha e povoou os mais diferentes locais do globo. Muitos
bailarinos e professores cubanos levaram a dança a outras partes do mundo, ao mesmo tempo que a prática
foi conhecida e difundida por simpatizantes e estudiosos de outras nações. Tendo em vista o período de seu
surgimento e sua atual dinâmica, é possível supor que sua prática agregou mais passos de dança e outras
estruturas para além da roda tradicional, transformando-se por onde passa. Isso pode ser vislumbrado nas três
diferentes visões sobre a prática que serão evidenciadas no decorrer do texto finalizando com algumas
considerações finais sobre a escrita.
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2. Rueda de Casino sob a ótica de um professor e pesquisador brasileiro
Bruno Blois Nunes teve seu primeiro contato com as Artes por intermédio da música. Experienciou aulas
de canto, violão, teclado e bateria enquanto experimentava outra prática artística: aulas de dança de salão.
Foi nesse momento que começou o envolvimento com a prática que não abandonaria mais, tornando-se
professor de dança de salão em 2006.Desde 2009, aproximou-se do fenômeno da Rueda de Casino e, a partir
desse momento, passou a estudá-la e envolver-se com coletivos de praticantes ao redor do mundo. A
participação em três Congressos Mundiais de Salsa (2009 a 2011) realizados pela Conexión Caribe
4
em São
Paulo, no Brasil e nos últimos três Congressos de Rueda de Casino organizados pelo SalsaNor
5
(Espanha em
2023, Grécia em 2024 e Áustria em 2025), foram experiências importantes nesta trajetória.
Em sua visão, a Rueda de Casino é uma ferramenta potente para a formação humana. Segundo Nunes
(2021), é possível pensar na prática como uma forma de trabalhar as diferentes inteligências múltiplas,
conceito elaborado por Gardner (2002): corporal, espacial, intrapessoal, interpessoal, linguística, lógico-
matemática, musical. É possível ver uma reflexão do autor sobre a aplicação teórica de Gardner (2002) na
Rueda de Casino:
Todos os participantes aperfeiçoam sua escuta musical para manter o ritmo harmônico da Rueda;
potencializam sua inteligência corporal-cinestésica para estimular a dinâmica da Rueda;
aprimoram sua percepção espacial dada a prática da dança e seus constantes deslocamentos pelo
espaço; apuram sua inteligência interpessoal haja vista a necessidade de prestar atenção aos
demais participantes da Rueda, o que ajuda na construção de uma boa relação para que a dinâmica
da dança tenha um bom resultado (Nunes, 2021, p. 41)
Como professor e pesquisador, Bruno Blois Nunes também utiliza a Rueda de Casino pedagogicamente,
como possibilidade de problematizar preconceitos enraizados em nossa sociedade. Em um texto recente,
Nunes e Dias (2023) discorrem sobre dois desses preconceitos mantidos em nosso senso comum: errar é feio
e lúdico é coisa de criança.
Quanto ao lúdico ser uma atividade destinada a crianças, Nunes e Dias (2023) acreditam que acabamos
enraizando a percepção de que, quando nos tornamos adultos, atividades lúdicas são associadas à fase infantil
do ser humano. Apoiados na concepção de homo ludens desenvolvida por Huizinga (2019), os autores
defendem a presença da ludicidade em toda fase humana. Com forma de fortalecer o argumento, evidenciam
a consideração do filósofo da ciência de Feyerabend (2011, p. 40): “[...] a atividade lúdica inicial é um pré-
requisito essencial para o ato final da compreensão. Não há razão alguma pela qual esse mecanismo devesse
4
Grupo que buscava promover a cultura latina (principalmente caribenha), com ênfase na dança e na música.
5
SalsaNor trata-se da primeira organização sem fins lucrativos da Noruega que busca propagar a cultura da salsa criada em 1999.
Recuperado em 27 de setembro de 2025, de www.salsanor.no/en/about-salsanor-building-the-joy-of-dance-in-norway-since-1999/.
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deixar de funcionar no adulto”. Dessa maneira, eles defendem que a prática da Rueda de Casino pode
desenraizar o preconceito com atividades lúdicas mencionado no início do parágrafo.
No tocante ao erro, um dos autores referenciados por Nunes e Dias (2023) é Saturnino de la Torre. Para
Torre (2005), a pedagogia que oportuniza o erro pode, por intermédio do ato de errar, refletir como e o que
pode ser aperfeiçoado. Além de Torre (2005), Bachelard (2004) revela a importância da reflexão sobre o erro,
mencionando que o ato de errar isolado sem uma problematização não ajuda no ensino, pois o ser humano
seguirá cometendo erros sem saber o motivo por trás das ações.
Com base nos autores citados acima, Nunes e Dias (2023) revelam que a Rueda de Casino oportuniza uma
possibilidade de experienciar o erro coletivamente, compartilhado com os demais bailarinos, fazendo com
que o grupo todo procure uma forma de solucionar o problema. Ao invés de inibir os praticantes, os
equívocos unem os dançarinos que, além de se divertirem dançando, procuram resolver os desafios que o
erro proporciona ao longo da prática.
Em sua prática como professor universitário, o docente costuma oferecer oficinas de Rueda de Casino
bem como desenvolver projetos de extensão com base nessa prática. Bruno acredita que a Rueda de Casino,
enquanto prática coletiva de dança de salão, oferece outras possibilidades de ensino-aprendizagem que não
encontramos nas danças a dois. A proposta de fazer uso do lúdico e do erro (tanto individual quanto coletivo)
para a aprendizagem da dança, revela o potencial de uma prática coletividade, em roda, em que cada
participante é responsável por manter a dinâmica do grupo bem como o grupo é responsável por cada
indivíduo.
3. No berço da Rueda de Casino: um relato cubano/brasileiro
O segundo ponto de vista é trazido pela docente Mônica Barboza. Sua trajetória na dança começa ainda
na infância, em sua cidade natal, no interior do Rio Grande do Sul. Muito jovem, começa a preparar-se e
atuar como professora de Balé, caminho que vai percorrer por longos anos. Como bailarina vivenciou uma
formação que percorreu diferentes estéticas e atuou em diversos coletivos artísticos, nos quais sempre
também foi professora. Academicamente voltou suas formações desde o Ensino Médio à docência, com
enfoque no ensino da arte da Dança e na formação docente nesta área.
Como anunciamos, a perspectiva por ela compartilhada neste texto, se origina de vivências in loco, a partir
da experiência de um estudo pós-doutoral desenvolvido junto à Universidad de Ciencias Pedagógicas
Enrique José Varona, em Havana, de janeiro de 2025 a janeiro de 2026. Ao fixar moradia pelo período de
um ano na ilha caribenha, a autora pode conviver com o povo cubano em seu cotidiano, assim aproximando-
se de seu modo de vida, organização política, cultura, ou seja, da cubanidade, principalmente com suas
práticas artísticas, foco de seu estudo.
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Ela recorda que uma das primeiras manifestações observadas, ainda no mês de fevereiro, foi uma grande
Rueda ao ar livre, evento que agregava muitos praticantes em torno do objetivo de dançarem juntos. As
parejas (casais) chegavam aos poucos com uma empolgação peculiar à proposta das Ruedas, um fazer
coletivo que move a todos por meio de um encontro festivo. Naquele momento, notava-se a presença de
gerações de cubanos adultos de todas as idades e oriundos de distintos municípios da cidade de Havana, que
chegavam até a Plaza de la Piragua, próximo ao Malecón de Havana, explica.
Em visita realizada a uma Escuela Provincial de Danza, no mês de março, pode-se acompanhar crianças
de nível elementar (correspondente aos Anos Finais do Ensino Fundamental no Brasil) em uma das aulas de
danças folclóricas, aprendendo e compartilhando a experiência de uma Rueda de Casino. Ou seja, esta é uma
das manifestações em dança consideradas como parte do repertório nacional, contemplada na formação de
bailarinos, como anunciamos anteriormente.
Na visão da educadora, é notória a relação entre aspectos desta forma de dançar, com princípios fundantes
da cultura revolucionária cubana como a coletividade, o respeito às gerações e aos mestres mais experientes
e a importância das individualidades para a construção de uma identidade coletiva. Identidade que é motivo
de orgulho. Não se pode falar de Cuba sem considerar sua história como um povo de luta que enfrentou
muitos combates em busca de sua independência, contra a ingerência do imperialismo estadunidense e em
prol de uma revolução socialista (Hernández, 1980). Portanto, na visão da educadora, Cuba cultiva ao longo
de sua história um ímpeto de irmandade e solidariedade internacionalista que lhe é peculiar, faz parte de sua
idiossincrasia.
A partir de dados empíricos oriundos de sua experiência em Cuba, a professora entende que bailar casino
é um movimento. Nesse modo de estar e dançar, todas as pessoas são importantes. A Rueda é sempre uma
dança coletiva que demanda uma enorme atenção ao par e ao mesmo tempo ao todo, aos demais pares. O
grau de imprevisibilidade desta dança que tem como base o improviso, demanda um estado de presença ainda
mais forte. Ela tem elementos, figuras conhecidas, mas a ordenação da sequência que será dançada é sempre
imprevisível e única. Traz em si um princípio inclusivo: qualquer lugar pode ser um espaço para bailar seja
uma rua ou um salão, é também uma manifestação que não determina uma faixa etária específica, enfatiza
Mônica Barboza.
Tanto as sonoridades que inspiram e embalam as Ruedas quanto a forma de dançar, os movimentos criados
e renovados a cada tempo histórico, expressam visualmente traços da identidade do povo cubano fruto da
transculturação entre suas origens hispânicas (colonizadores) e africanas (população escravizada e seus
descendentes), principalmente. De acordo com Sánchez Ortega et al. (2013) esses povos se fundiram e
integraram, gerando as bases da cultura cubana e por consequência de sua forma de fazer arte.
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Mônica Barboza relembra que não é algo raro, na atualidade em um encontro, um evento de outra natureza,
inesperadamente ver-se formar uma Rueda e nela uma certa mobilização e euforia que se forma. uma
mística, uma espécie de materialização e de um pertencimento à cubanidade que carrega princípios de
irmandade, de olhar-se e olhar aos outros, em celebração.
Assim como as demais manifestações artísticas presentes na ilha, as rodas de casino também, muitas
vezes, fazem parte de eventos e festividades políticas, como por exemplo a comemoração dos 65 anos de
criação dos Comitês em Defesa da Revolução (os CDRs), que no dia 28 de setembro de 2025 realizaram o
acontecimento de várias Ruedas concomitantes em toda ilha.
Um feito compartilhado com entusiasmo no país e que foi realizado recentemente ocorreu no ano de 2024,
quando o recorde de pessoas dançando Ruedas de Casino simultaneamente foi alcançado (Castro Ruz, 2024).
De acordo com um periódico local, “durante nove minutos em toda a ilha se realizaram simultaneamente 142
rodas de casino com mais de dois mil e novecentos dançarinos em todo país”
6
(Castro Ruz, 2024, seção
Cultura).
Percebe-se que as Ruedas transformaram-se como se transforma a cultura cubana e são mantidos contatos
de praticantes e professores da ilha com outros cubanos que estão fora dela e pessoas de outras
nacionalidades, adeptas a esta forma de expressão dançada. Na generosidade própria do povo, que carrega a
autoria dessa brilhante manifestação dançada, não melindres em sua partilha. Ao contrário, cubanos
gostam de ensinar a quem chega, de fazer um convite para presenciar alguma Rueda ou mesmo de trazer-te
para ela, sem que mesmo tenhas pensado nisso. Assim, a manifestação tem sido uma das formas de difusão
da cultura cubana para o mundo.
A professora expressa preocupação com a maneira como essa dança se expande, receando que os valores
genuinamente cubanos que a fundem, se diluam em práticas esvaziadas de contextualização histórico-
cultural. Também entende que a mercadologização desta manifestação é um fenômeno que contradiz a
essência desta dança. A pesquisadora cubana Balbuena Gutierrez (2022, seção Cosmoescena) ressalta o
grande quantitativo de mestres nacionais e de outros países que atuam com essa prática de maneira muito
respeitosa e qualificada, porém também com preocupação a atuação de pessoas que chamou de
“verdadeiros depredadores” das danças tradicionais cubanas.
Por conta de não atuar no ensino, prática e pesquisa das danças de salão, Mônica Barboza ao fim, entende
que apreciação e aproximação das Ruedas, por meio do estudo pós-doutoral, foi extremamente formativa sob
vários pontos e aspectos. Essa manifestação segundo a professora, carrega princípios que podem ensinar
muito à concepção de formação de professores(as) que defende. Esta, em uma perspectiva “mais solidária e
6
No original: Durante nueve minutos en toda la Isla se realizaron simultáneamente 142 ruedas de casino, con más de dos
mil 900 bailadores en todo el país”.
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não solitária” (Barboza, 2024, p. 24) para que possamos pensar e fazer a docência a partir da efetivação de
práticas que sejam em si mesmas conteúdo que educa para a solidariedade na luta anti-imperialista e
internacionalista.
4. Noruega dança Rueda de Casino: um pouco acerca de um dançarino e
pesquisador do tema
Bernt Rygg nasceu em Stavanger, Noruega e se mudou para Olso onde habita atualmente. Na capital
norueguesa, quando frequentava aulas de salsa na universidade, ocasionalmente ocorriam encontros com
instrutores internacionais nos finais de semana: aqui ocorreu o primeiro contato com a Rueda de Casino.
No tocante à Oslo, o movimento salsero não era grande naquela época. Entrando em contato com outros
dançarinos de salsa, conheceu um norueguês que dava aula de Rueda de Casino em Oslo chamado Joar
Svanemyr cujas aulas passou a frequentar por volta dos anos 2000. No mesmo período, um instrutor de
cubano de Rueda, Juan Carlos Ortega, também havia se mudado para Oslo e dava aulas em outra escola de
dança.
Em 2002, muitos participantes das aulas de Rueda de Casino se deslocaram a Stavanger para a realização
do primeiro Rueda Congress organizado pelo SalsaNor. Inicialmente, era um evento nacional com o objetivo
de definir uma forma padrão de dançar as figuras mais básicas da Rueda de Casino, o que nos permitiria
dançar Rueda juntos em todas as cidades. Assim, surgiu o Norwegian Rueda Standard (Padrão de Rueda
Norueguês), abreviado, futuramente para Rueda Standard
7
após a remoção de qualquer elemento
especificamente norueguês.
A participação do autor no evento ocorria regularmente. Em um momento de uma das edições do evento,
ele foi convidado para dançar uma Rueda de Casino com quatro casais em que os outros três líderes eram
instrutores do evento: Joar Svanemyr, Ricardo Martinez e Cristobal Olivares. O encontro também possibilitou
o fortalecimento do vínculo com Reidun Svabø, organizadora do evento e fundadora do SalsaNor.
Após conhecer Reidun, ela rapidamente solicitou o pesquisador para participar na organização dos eventos
de dança. No início, ocorreu certa hesitação tendo em vista que não sabia como poderia ajudar, mas ela foi
vencida pelo envolvimento ajudando nas tarefas práticas, como informações na internet e gravação e edição
de vídeos.
O processo foi tão gradual e orgânico que é difícil precisar a data em que começou a trabalhar na
organização do evento, mas é possível afirmar que no congresso realizado em 2005, foi um ano de muito
envolvido na parte organizacional bem como a primeira edição ministrando aula de Rueda de Casino no
evento após passar alguns anos ensinando essa prática em escolas de dança na Noruega. Desde então, deu
7
Mais informações sobre essa padronização em: https://rueda.casino/ruedastandard/. Recuperado em 27 de setembro 2025.
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aula de Rueda em todos os eventos organizados pelo SalsaNor, exceto em 2010, passando por países como
Áustria, Dinamarca, Espanha, Grécia e Inglaterra.
No Rueda Congress de 2014, foi convidado para ir aos Estados Unidos auxiliar José Barreto na
organização do Festival Rueda de Boston. Havia um grande interesse em saber o que havia sido desenvolvido
na Europa e acabou sendo convidado por mais três anos consecutivos para ministrar aulas. Com o vínculo
estabelecido em solo estadunidense, foi convidado para lecionar Rueda em Nova Iorque em 2024. Outras
vivências com Rueda também foram experienciadas ao lecionar na Alemanha e Finlândia, além de ministrar
uma oficina de Rueda Llanta
8
para um grupo de dançarinos cubanos em Havana, durante uma viagem de
dança do grupo SalsaNor.
Durante o Rueda Congress de 2005, foi realizada a primeira revisão do Rueda Standard (Padrão de
Rueda). Para comunicar as novas figuras de Rueda de Casino, foi gravado um DVD. Posteriormente, em
2009, foi aberto um canal no Youtube para a divulgação dos vídeos de maneira gratuita e a receptividade foi
enorme com o canal alcançou mais de 3 milhões de visualizações. No entanto, a qualidade da produção e os
locais aleatórios das filmagens foi um ponto que não satisfez a organização. Diante disso, em 2018, lançou-
se um canal de vídeos (rueda.casino) para assinantes no Vimeo em que foram convidados dançarinos cubanos
e uma equipe de produção profissional para criar vídeos educativos sobre as danças Casino e Rueda de
Casino. Mesmo assim, a experiência no Vimeo não atendeu às expectativas, pois era muito limitado o número
de pessoas que poderiam se beneficiar do trabalho tendo em vista as restrições de pagamento. Com isso, a
organização decidiu lançar vídeos com resolução de alta qualidade no canal do Youtube para acesso aberto
em 2024.
Depois de ser um dos principais organizadores do SalsaNor Rueda Congress por mais de uma década,
gradualmente deixou essa função para ter mais tempo livre.
9
O pesquisador continua bastante envolvido com
a coordenação do evento, mas em uma função mais limitada e em tarefas mais específicas, como dar aulas e
realizar certos eventos.
Bernt Rygg sempre gosta de explorar novas ideias. Em uma viagem de dança à Cuba em 2011, levou uma
câmera de vídeo e fez algumas entrevistas com dançarinos cubanos sobre temas relacionados à dança. Usou
esse material para fazer um vídeo que foi exibido durante o evento de Rueda de Casino, como entretenimento
informativo. No início, a qualidade não era boa e parecia bastante caseira. À medida que expandiu o conteúdo
e editou novas versões, juntamente com o desenvolvimento tecnológico, a qualidade melhorou.
8
Para maiores informações sobre esse tipo de Rueda de Casino acessar: https://rueda.casino/rueda-structures/rueda-llanta/.
Recuperado em 25 de setembro de 2025.
9
Como trabalhou com Rueda de Casino por um tempo e estando exposto através do meu papel como organizador e instrutor no
SalsaNor’s Rueda Congress, fui abordado por algumas pessoas que estão trabalhando em livros, estudos ou outras formas de
literatura sobre Rueda de Casino para revisar, comentar e aconselhar.
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alguns anos, foi decidido priorizar a produção de vídeos em eventos capitaneados pela organização
principalmente relacionados à Rueda de Casino, com diferentes ângulos sobre sua história e cultura. Quando
os instrutores cubanos o convidados, procura-se aproveitar a oportunidade e convidá-los para entrevistas
curtas.
O trabalho realizado até então resultou em um total de três documentários relacionados à Rueda de Casino,
usando seu próprio material e adicionando algum material de código aberto. Os tópicos em que trabalhou
são:
Secrets behind the Rueda de Casino calls (primeira edição 2011, última de 2025): aborda o significado
cultural por trás dos vários passos cantados usados na Rueda de Casino (Rygg, 2025).
The emergence of Rueda structures (primeira edição 2023, última de 2024): discorre sobre as 25 estruturas
diferentes de Rueda de Casino ensinadas nos 20 primeiros anos do SalsaNor’s Rueda Congress (Rygg,
2024a).
The origin of Rueda de Casino (edição única de 2024): nesse documentário, é apresentado como a Rueda
de Casino se originou no final da década de 1950 com suas linhas traçadas até a atualidade (Rygg, 2024b).
O autor espera poder editá-los de uma forma que seja possível publicá-los eventualmente, mas, por
enquanto, eles estão em andamento, apenas para ambientes privados.
5. Considerações em roda
Esse artigo buscou apresentar três narrativas de pesquisadores em diferentes locais abordando o mesmo
fenômeno artístico: a Rueda de Casino. Essa dança de origem latino-americana carrega a força e as
características do povo que a criou e se desenvolveu. Como muito de sua arte, as Ruedas de Casino
navegaram por outros mares e acabaram se espalhando por várias partes do mundo.
Podemos inferir que em cada contexto em que chega, esta dança coletiva carrega suas origens, mas
também vai sofrendo adaptações relacionadas ao universo novo no qual se insere. Uma das questões que nos
parece pertinente destacar se refere ao sistema político econômico de seu país de origem e suas distinções em
forma de organização social. As Ruedas de Casino, quando surgiram em Cuba, eram vivenciadas apenas por
uma parcela de sua sociedade. A partir do triunfo da revolução socialista, como vimos, elas se popularizaram,
difundiram e democratizaram. Portanto, essa prática de dança faz parte da vida e da cultura de um povo
formado em uma lógica distinta dos demais países aqui destacados.
É interessante pensarmos como esta manifestação tão genuína pode ser ao mesmo tempo universal, pois
nos coloca em um modo de relação com os demais que é colaborativo, inclusivo e solidário. Não seriam esses
valores humanos universais? Ocorre que em um sistema político econômico como o capitalismo nem sempre
estará disponível a todas as pessoas, mas sim àqueles que podem pagar para aprendê-la e usufruí-la. As
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Ruedas viram mercadorias, nesses novos contextos? Com qual sentido se inserem e solidificam em outras
sociedades? Essas são questões que nos interpelam nesse momento e sobre as quais cabe refletir com maior
profundidade em escritas e pesquisas futuras. É preciso alertar para o risco de apropriações inadequadas ou
mesmo de desvio de valores que fundamentam esse modo de dançar desde sua essência
Como mencionamos inicialmente, as práticas de Rueda mencionadas pelos três pesquisadores estão
inseridas em contextos distintos. E aqui queremos ressaltar em comum, o respeito e o reconhecimento aos
verdadeiros criadores desta dança/expressão/movimento, que tanto tem a nos ensinar sob várias perspectivas.
O povo cubano em suas mais diversas expressões de cubanidade exemplifica ao mundo a conquista de
uma cultura humanista e internacionalista que tem como base a solidariedade. Isso se expressa não quando
envia profissionais da saúde para os mais diversos recantos do mundo, mas também quando leva inúmeros
artistas e educadores por toda parte, a difundir e partilhar saberes e conhecimentos com a generosidade que
é peculiar a seu processo revolucionário.
A partir do que expõem os autores podemos sintetizar que juntos, os três demonstram algumas das
potencialidades das Ruedas de Casino nas dimensões culturais, políticas, psicológicas, pedagógicas, enfim
como via de melhoramento humano. Compreendemos que as Ruedas podem ser trabalhadas com objetivo de
entretenimento, devido a sua vocação de proporcionar saudáveis momentos de lazer, pertencimento e bem-
estar. Mas também, como ferramentas de ensino, quando favorecem práticas voltadas à percepção da
coletividade, da resiliência e da capacidade de trabalho colaborativo. Do ponto de vista psicomotor podem
colaborar no desenvolvimento de habilidades rítmicas e motoras. Em suma, as Ruedas de Casino, em sua
essência, carregam conhecimentos e conteúdos que podem ser desenvolvidos em diferentes realidades e
contextos.
que se publicizar práticas, desenvolver mais pesquisas e sobretudo, valorizar e difundir essa
manifestação desde o lugar do respeito à sua origem. Nesse sentido, compreendemos a importância de fruir,
fazer, pensar e estudar estas danças, o máximo que se possa em comunhão com o povo que a originou. Sua
força enquanto modo de organização, de entretenimento, de espaço de trocas entre as pessoas participantes e
de projeção cênica pode impulsionar outros modos de vivenciar a dança, esta, tão presente na vida de
diferentes povos do mundo.
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