https://journals.scientia.international/SIJLLA
Scientia International Journal for
Linguistics, Letters and Arts
Vol. 1, 1 (2026)
Tipo: Artigo de Pesquisa | DOI: 10.56365/h3mbs051
XXXX-XXXX © 2026 Os autores. Publicado por Scientia.International S.L. (Espanha).
Artigo de acesso aberto sob licença CC BY 4.0 (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0).
Percorrendo Midian: Clive Barker e a renovação da literatura de
horror
Michel Goulart da Silva
Instituto Federal Catarinense, Blumenau, Brasil
https://orcid.org/0000-0002-3281-3124
michelgsilva@yahoo.com.br
Resumo
Este ensaio discute a construção da representação do monstro na obra Raça da Noite, do escritor de Clive Barker. Essa análise é
feita a partir da comparação de aspectos presentes na obra com elementos comuns das narrativas clássicas de horror. Para tanto,
são apresentados e discutidos na bibliografia textos de autores especializados que tratem das narrativas de horror. Procura-se,
assim, demonstrar a originalidade de alguns elementos de subversão presentes na narrativa de Barker e como isso impacto na
representação do monstro.
Palavras-chave: Clive Barker; Horror; Monstro.
Detalhes do artigo | Avaliação por pares aberta
Editado por:
Michel Goulart da Silva
Avaliado por:
Rhuan Felipe Scomaçao da Silva
Yasmim Pereira Yonekura
Citação:
Silva, M. G. (2026). Percorrendo Midian: Clive Barker e a renovação da literatura
de horror. Scientia International Journal for Human Sciences, 1(1).
https://doi.org/10.56365/h3mbs051
Histórico do artigo
Recebido: 16/12/2025
Revisado: 17/02/2026
Aceito: 18/02/2026
Disponível: 20/02/2026
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1. Introdução
Em 1988, o escritor britânico Clive Barker deu vida a uma mitologia de criaturas que chamou de Raça
da Noite. Tratava-se de um conjunto de figuras monstruosas, dos mais variados tipos, que haviam se
refugiado em um local distante do convívio humano por séculos, chamado Midian. Esse distanciamento se
devia à necessidade de se proteger diante da perseguição que sofriam por parte dos humanos. Na história
narrada por Barker, essas criaturas são descobertas, perseguidas e têm sua paz perturbada justamente pela
ação dos humanos.
No livro Raça da noite, como em outras narrativas, Barker embaralha a dualidade simplista entre Bem
e Mal, colocando em questão quem são realmente os temíveis monstros: as criaturas fantásticas que habitam
o subsolo para não serem descobertas e massacradas ou a humanidade que as teme e, por isso, quer destruí-
las. Embora seja uma história de horror, clássica entre as produções recentes, tendo inclusive uma adaptação
cinematográfica assinada pelo próprio Barker, a história da Raça da Noite tem um evidente fundo político e
mostra importantes elementos de renovação do gênero de horror. O romance mostra o funcionamento do
preconceito em relação às diferenças e como o medo em relação ao que se desconhece pode mobilizar um
sentimento de violência coletiva desenfreado.
Na trama narrada por Barker, Aaron Boone sofre com pesadelos envolvendo um lugar chamado
Midian, uma comunidade habitada por monstros. Com o apoio de sua namorada, Lori Winston, Boone busca
a ajuda do psicoterapeuta Dr. Phillip Decker. O médico é, em realidade, um serial killer responsável pelo
assassinato de famílias e tenta imputar a Boone a culpa de seus crimes. Depois de um acidente, por conta do
uso de drogas prescritas por Decker, Boone conhece outro paciente, Narcise, que fala em Midian e, depois
de apontar sua localização, arranca a pele do próprio rosto. A confusão criada por Narcise acaba permitindo
a fuga de Boone. Contudo, chegando a Midian, Boone descobre que não havia cometido os crimes a ele
atribuídos por Decker, mas que, se não era um monstro, poderia ser morto e devorado pela Raça da Noite.
Boone consegue fugir, mas é surpreendido por policiais, liderados por Decker, e é morto a tiros. Contudo,
volta à vida pouco depois, no necrotério, devido ao ferimento causado por um dos membros da Raça da Noite.
Depois que Boone se junta à Raça da Noite, Decker lidera um violento ataque para persegui-lo e destruir
Midian.
Embora Clive Barker seja um criador com as mais variadas facetas, tendo passado inclusive pelo
teatro e pelas histórias em quadrinhos, é por meio do cinema e da literatura que seu nome ressoa com mais
frequência. Sua fama mundial deve-se principalmente ao sucesso conquistado pelo clássico filme de horror
Hellraiser (1987), dirigido e adaptado por ele a partir de um conto de sua própria autoria. Essa experiência
de dirigir para o cinema sua própria obra repetiu-se poucos anos depois, no filme Nightbreed (1990), adaptado
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a partir de Raça da noite. Nessa obra, Barker também aposta em um conjunto de criaturas fantásticas, como
em alguns dos contos dos volumes de Livros de sangue ou mesmo em Hellraiser. Barker dizia, em relação à
adaptação cinematográfica de seu livro: “Quero explorar o tema da monstruosidade, criar uma mitologia que
vá além de tudo o que já vimos nesse tipo de filme” (Timpone, 1998, p. 157).
Nas obras de Barker sobressai uma grande criatividade na construção de figuras monstruosas.
Vugman (2018, p. 22) destaca que “o monstro tem a função de delimitar as fronteiras que separam o natural
do antinatural, o humano do não-humano, o civilizado do não civilizado, o bem do mal, o certo do errado.
Por ser sempre o Outro, o monstro remete a nossa identidade e à alteridade e orienta nosso desejo de
pertencimento”. Cabe lembrar que, “no processo de consolidação de uma identidade coletiva, cada
comunidade cria seu monstro e sua história”, tentando “definir valores, comportamentos e mesmo uma
estética para cada um se reconhecer e ser reconhecido como membro daquele grupo” (Vugman, 2018, p. 22-
3). Nesse sentido,
[…] quando uma coletividade cria uma história de monstro, está tentando definir o
“humano” de acordo com sua visão de mundo, suas crenças e seus valores,
oferecendo uma referência para que cada indivíduo possa ver o seu vizinho como um
semelhante. Enquanto esse monstro for capaz de expressar as angústias geradas pelas
contradições e imprecisões inerentes à definição de humano, seguirá funcionando
como uma metáfora potente. Quando deixar de cumprir essa função, as histórias desse
monstro serão esquecidas, ou precisarão ser adaptadas (Vugman, 2018, p. 24).
Barker subverte essa dicotomia entre monstro e humanidade, atribuindo o aspecto monstruoso a algo
muito mais complexo do que a natureza física. Os seres humanos, quando manifestam seu medo pelo Outro,
podem ser considerados monstruosos. Neste ensaio, se buscará mostrar esses elementos, em um primeiro
momento fazendo um breve panorama das narrativas de horror na literatura. Em um segundo momento, serão
analisados alguns elementos da obra de Barker, em especial sua representação do monstro. Procurar-se-á, ao
final, discutir a originalidade de alguns elementos da narrativa de Barker.
2. Elementos para uma história da literatura de horror
O medo foi um tema bastante recorrente ao longo de toda a história da literatura, sendo utilizado na
construção de narrativas das mais variadas. A literatura de horror se baseia fundamentalmente na construção
do medo, ou melhor, na narrativa de acontecimentos que provocam medo no leitor. O medo, “inerente à nossa
natureza, é uma defesa essencial, uma garantia contra os perigos, um reflexo indispensável que permite ao
organismo escapar provisoriamente à morte” (Delumeau, 1993, p. 19). Na construção das narrativas, o medo
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é “uma emoção-choque, frequentemente precedida de surpresa, provocada pela tomada de consciência de um
perigo presente e urgente que ameaça, cremos nós, nossa conservação” (Delumeau, 1993, p. 23). Nesse
sentido, pode-se afirmar que “o medo é nossa emoção mais profunda e mais intensa, e, também, a que mais
se presta à criação de ilusões que desafiem a Natureza” (Lovecraft, 2009, p. 151). Nessas obras,
[...] o horror e o desconhecido, ou o estranho, mantêm sempre uma relação muito
estreita, de modo que é difícil pintar um retrato convincente do esfacelamento das
leis naturais ou da estranheza ou singularidade cósmica sem destacar a emoção do
medo (Lovecraft, 2009, p. 151).
Entendendo o horror em sentido amplo, pode-se identificar seus precursores em diferentes momentos
históricos, como nas epopeias e nas tragédias clássicas gregas, bem como na obra medieval Divina Comédia,
de Dante, considerado “um pioneiro na captura clássica da atmosfera macabra” (Lovecraft, 2008, p. 23). Na
obra de William Shakespeare, o medo e o sobrenatural são elementos que aparecem em diferentes narrativas,
sendo possivelmente os mais emblemáticos as bruxas em Macbeth e a aparição do fantasma do pai de Hamlet.
Nesse sentido, também os contos de fadas, que proliferaram nos séculos XVII e XVIII, mantêm relação com
a produção de horror, na medida em que “traziam seres bizarros que representavam o mal que eram
confrontados pelo herói antes de vencer no final”, em tramas que envolviam “magia, metamorfoses,
encantamentos ou animais falantes” (Melo, 2011, p. 22).
O medo e o sobrenatural deixam de ser apenas elementos narrativos eventuais e passam a ser o centro
das obras somente no final do século XVIII, por meio de obras associadas ao gótico. Essas obras
“representaram uma volta ao passado feudal, provocada pela desilusão com os ideais racionalistas e pela
tomada de consciência individual frente aos dilemas culturais que surgiram na Inglaterra a partir da metade
final do século XVIII” (Sá, 2010, p. 35). Nessa perspectiva, a obra gótica normalmente apontada como
precursora do horror moderno é o romance O Castelo do Otranto (1764), de Horace Walpole. Nessa obra são
apresentados elementos estéticos que viriam a ser utilizados em obras posteriores:
Essa nova parafernália dramática consistia, antes de tudo, do castelo gótico com sua
antiguidade espantosa, vastas distâncias e ramificações, alas desertas e arruinadas,
corredores úmidos, catacumbas ocultas insalubres e uma galáxia de fantasmas e
lendas apavorantes como núcleo de suspense e pavor demoníaco (Lovecraft, 2008, p.
28).
Nessas obras também são delineadas as características de alguns dos principais personagens,
podendo-se destacar, entre outros,
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[...] o nobre tirânico e perverso como vilão; a heroína santa, muito perseguida e
geralmente insípida que sofre os maiores terrores e serve de ponto de vista e foco das
simpatias do leitor; o herói valoroso e sem mácula, sempre bem-nascido, mas
frequentemente em trajes humildes (Lovecraft, 2008, p. 28).
O romance gótico ganhou uma rápida difusão, destacando nomes como Ann Radcliffe e Matthew
Gregory Lewis. Em meio ao grande sucesso de público, “o furor desencadeado pela ficção gótica ocasionou
uma produção enorme, em sua maioria direcionada para a venda e com pouca preocupação pela inovação
literária” (Sá, 2010, p. 43-4). Posteriormente, essas produções, incorporando elementos mais complexos,
como a influência do desenvolvimento da ciência ou a presença de monstros sobrenaturais, não demoraram
a ganhar alguns dos seus mais conhecidos clássicos.
Em 1818, Mary Shelley publicou o romance Frankenstein, uma obra que viria exercer enorme
influência não apenas na literatura de horror, mas também na ficção científica. No ano seguinte, John Polidori
publicou o romance O Vampiro, considerado um “divisor de águas na literatura de vampiros”, na medida em
que “estabeleceu importantes elementos que foram aproveitados ou modificados em subsequentes criações
artísticas”, como o fato de o vampiro não atacar “simplesmente visando o sangue, pois há a presença de um
elemento erótico entre ele e sua vítima e os elementos eróticos ou libertinos ganham mais destaque na
narrativa do que a necessidade de sangue” (Silva, 2012, p. 26).
Nos Estados Unidos não demorou a surgir nomes influenciados pelo gótico europeu, dos quais se
destaca Edgar Allan Poe. O poeta e contista estadunidense trabalhou um conjunto de temas que viriam a ser
comuns na literatura posterior de terror, como a loucura, e definiu muitas das características estéticas da
literatura de horror, como o suspense. Em sua obra, o poeta “apropriou-se de contribuições da tradição
literária ocidental e do melhor de sua própria época, fazendo de sua obra um épico sobre a degradação do
homem, o desespero, a alienação, a completa falta de perspectivas” (Silva, 2011, p. 151).
O romantismo na literatura europeia aos poucos foi perdendo espaço para o realismo e,
posteriormente, para o naturalismo. Com isso, ainda que parte das principais obras do período em certa
medida não tenham se valido do sobrenatural, não se deixou de lado o medo na literatura. Associadas
especialmente ao naturalismo, foram produzidas algumas obras que colocavam em cena a crueldade
manifesta pelos seres humanos, tendo no próprio homem uma manifestação de monstro. Uma das obras mais
lembradas desse período é A besta humana (1890), e Émile Zola.
No final do século XIX foram publicados alguns dos maiores clássicos europeus da literatura de terror.
Em 1872, o escritor irlandês Joseph Sheridan Le Fanu deu vida a Carmilla, uma vampira lésbica, que
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personificava alguns dos maiores medos das famílias burguesas e aristocráticas do período. Nessa obra,
[...] o ataque de Carmilla a meninas e moças pode ser interpretado como um ataque
direto ao futuro da comunidade no sentido de que ao matar pessoas do sexo feminino
a vampira priva esse grupo social daquelas responsáveis pela geração de novos
membros (Silva, 2010, p. 26).
O vampiro ganhou sua personificação definitiva com a obra Drácula (1897), de Bram Stoker, com a
qual “toda a produção vampírica do século passado e deste início de culo ainda dialoga” (Silva, 2012, p.
31). Drácula colocava em cena uma criatura sobrenatural que atacava as estruturas e o futuro das famílias
tradicionais, ou seja,
[...] com o passar do tempo e o gradual predomínio da ideologia patriarcal em
detrimento de culturas onde a mulher exercia papel central, o mito do vampiro passou
a ficar mais associado à transgressão das normas sociais (fundamentadas em um
pensamento cristão e, por conseguinte, masculino). Suicidas, vítimas de morte brutal,
filhos bastardos ou pessoas excomungadas eram candidatos a se tornarem vampiros
(Silva, 2010, p. 25).
Contudo, ao mesmo tempo, o romance de Stoker inseriu Drácula em meio à modernidade capitalista
que marcava a Londres. Contemporâneas aos dois grandes clássicos vampíricos, são as obras O Médico e o
Monstro (1886), do escritor escocês Robert Louis Stevenson, e O retrato de Dorian Gray (1890), do irlandês
Oscar Wilde. No primeiro, um experimento científico faz com que o médico se transforme em um perigoso
monstro. No segundo, um belo jovem troca sua alma pela possibilidade de não envelhecer.
Durante todo o século XX, o horror e o sobrenatural aparecem em numerosas obras literárias.
Possivelmente um de seus maiores nomes é H. P. Lovecraft, que construiu uma mitologia própria de
monstros, tendo escrito suas principais obras nas décadas de 1920 e 1930. Essas obras inspiraram muito da
literatura e do cinema produzido nas décadas seguintes.
Por outro lado, no século XX, essas diversas produções culturais ampliam o uso da figura do monstro
como principais ameaças à humanidade. Observa-se que, “com o fim da II Guerra Mundial, um novo cenário
aparece nas histórias apocalípticas, onde monstros povoam um mundo assombrado pela possibilidade de um
holocausto nuclear” (Vugman, 2018, p. 45). O estabelecimento desse marco na Segunda Guerra o ocorre
por acaso, afinal
[...] o ataque nuclear a Hiroshima e Nagasaki criou a necessidade de uma metáfora
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do Mito do Monstro para novas angústias existenciais, aquelas que afligem um ser
humano dotado de um poder de destruição total. Em livros e em filmes surgem
narrativas onde os monstros não exibem qualquer interesse em pertencer à
comunidade humana, movidos apenas pelo desejo de sua total destruição (Vugman,
2018, p. 51).
Nesse contexto se produz a figura do zumbi, uma metáfora para as perigosas massas que cercam a
burguesia e ameaçam a propriedade privada nos grandes centros urbanos. O zumbi é um monstro coletivo.
Embora possam atacar sozinhos, se tornam mais perigosos quando atuam em horda, cercando grupos de
pessoas vivas, com vistas a comer partes de seus corpos. São seres cujas ações não apresentam uma
intencionalidade. O zumbi, destituído de qualquer identidade pessoal, “segue se movendo e consumindo, sem
objetivo, nem projetos, sem passado, nem futuro. O zumbi é a metáfora de um mundo que morreu, mas
que continua em movimento” (Vugman, 2018, p. 55). Os zumbis são o monstro típico de uma sociedade de
massas, com grandes concentrações em espaços urbanos, onde podem se locomover e encurralar suas vítimas.
Nas últimas três décadas do século XX, alguns escritores do gênero se tornaram best sellers, com
destaque para o estadunidense Stephen King. Outro nome que se tornou bastante notável foi o britânico Clive
Barker. Outros nomes também se destacaram nas décadas mais recentes, como Peter Straub e William Peter
Blatty. Segundo Causo (2003, p. 101), nas últimas décadas, “o horror se voltou para o cotidiano, disposto a
assumir a função de um espaço metafórico para os horrores mais reais que caminhavam em nossa rua”. Em
função disso,
[...] uma das formas mais modernas do horror é a dark fantasy. São narrativas que
partem de um cotidiano contemporâneo, onde à primeira vista nada ocorre fora do
normal. Paulatinamente um elemento fantástico mágico, sobrenatural ou até mesmo
pertencente aos temas da ficção científica se intromete e vai construindo uma
atmosfera de horror (Causo, 2003, p. 101).
O horror, portanto, faz parte da cultura popular contemporânea. Pelo panorama exposto, pode-se
afirmar que o horror se tornou um artigo básico em meio às formas artísticas contemporâneas, populares ou
não, gerando quantidade de vampiros, duendes, diabretes, zumbis, lobisomens, crianças possuídas pelo
demônio, monstros especiais de todos os tamanhos, fantasmas e outros (Carroll, 1999, p. 13). Contudo,
persiste certa compreensão de que se trata de um gênero menor, como a literatura policial ou erótica, ainda
que alguns escritores considerados canônicos tenham escrito obras do gênero e, inclusive, seja recorrente a
citação de obras de horror em listas de obras literárias clássicas. Os livros de Barker fazem parte dessa
constituição de novos clássicos do horror, problematizando elementos sociais e contribuindo para o
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desenvolvimento da literatura de forma geral.
3. Midian e os monstros
O romance Raça da noite mostra a história de um conjunto de criaturas que se escondem da
perseguição humana, provocada em grande medida pela ira religiosa da humanidade. Midian era o lugar que
séculos antes tinham encontrado para se esconder e construir sua sociedade sem a intervenção humana.
Debaixo da terra, encontrava-se um complexo sistema de túneis, escadas, pátios e dormitórios onde as
criaturas tentavam construir pacificamente suas vidas. Essas criaturas estão envolvidas pela escuridão. Para
muitas delas, o sol é um inimigo tão perigoso como os seres humanos. Não são criaturas imortais, correndo
o risco de ser feridas de diferentes formas, inclusive pela exposição ao sol, ainda que possam viver muitos
anos ou mesmo séculos. Na representação dos mortos feita por Barker, acabam por aparecer também figuras
frágeis que precisam se proteger dos humanos.
Essa construção da representação do monstro tem relação não apenas com a literatura ou outras
expressões artísticas, mas também como parte da própria sociedade. Observa-se que “o monstro assumiu
sentidos e formas diversas com o passar dos séculos” (Messias, 2016, p. 55). Portanto, sabe-se que os
monstros “são construções que se relacionam à época e à cultura que o produziram” (Ribeiro, 2021, p. 36).
O monstro, dessa forma, está associado ao medo ou a uma forma de ameaça, que pode ou não ter algum
elemento sobrenatural. O monstro se define “em oposição à humanidade. Ele é o seu inimigo mortal, aquele
contra o qual ela pode reagir pelo extermínio” (Nazário, 1998, p. 11). Nesse sentido, “a maior parte dos
atributos da monstruosidade está em clara oposição aos atributos que definem a condição humana. Outros,
são aspectos dessa condição tomados isoladamente e submetidos a um tratamento plástico do exagero”
(Nazário, 1998, p. 11).
Retornando a Midian, sabe-se que era um lugar que acolhia “monstros”, em grande medida criminosos
em busca de algum tipo de redenção. No livro, afirma-se: “Midian era como um lugar de refúgio; um lugar
para se ser levado. E mais: um lugar onde quaisquer pecados que houvessem cometido reais ou imaginários
seriam perdoados” (Barker, 1994, p. 29-30). Boone, o protagonista do livro, quer escapar de sofrimentos e
de crimes recém-descobertos que supostamente teria cometido. Com isso, em Midian “um lugar para ir,
onde poderia encontrar finalmente alguém que compreendesse os horrores que estava suportando” (Barker,
1994, p. 34).
Essa representação coloca em conflito uma dualidade da natureza de Boone. Nesse processo, afirma-
se, quando o protagonista segue para Midian, que “o Homem Boone e o monstro Boone não poderiam ser
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divididos. Eram um só; viajavam pela mesma estrada na mesma mente e no mesmo corpo. E o que quer que
estivesse ao fim dessa estrada, morte ou glória, seria o destino de ambos” (Barker, 1994, p. 40). Contudo, ao
chegar em Midian, descobre que não havia cometido os crimes que a ele eram imputados; não era uma “besta”
ou um “monstro”. Portanto, neste caso, Boone não poderia fazer parte daquele lugar nem poderia entrar em
Midian. Boone insiste que é um monstro, mas, no final das contas, se não pertence ao lugar, deveria ser
devorado. Em sua confusão e agonia, descobre que “mesmo ali, entre os monstros de Midian, não era o seu
lugar. E, se não era ali, onde era?” (Barker, 1994, p. 51).
Nesse aspecto, observa-se uma subversão que Barker faz em relação às narrativas clássicas, afinal,
“no cânone ocidental, todo monstro deseja integrar a sociedade em que é criado, já que sua identidade, ou ao
menos sua existência, depende dela” (Vugman, 2018, p. 33). Boone, pelo contrário, por se considerar um
monstro, quer se integrar àquela comunidade escondida que, diante da perseguição sofrida em séculos
anteriores, se escondia da sociedade. Em determinado momento, afirma Barker (1994, p. 115): “Havia poucos
esconderijos onde os monstruosos podiam encontrar paz”. E aquela não era o lugar para Boone.
Boone, depois de atacado e mordido, consegue escapar, para ir ao encontro de outro monstro: aquele
que realmente havia cometido os assassinatos de que era acusado, seu psiquiatra, que era um frio serial killer
e havia forjado uma série de provas, inclusive a confissão de Boone de que este seria o assassino de alguns
dos crimes cometidos pelo médico. Embora escapando do ataque de um dos moradores de Midian, Boone
não escapou dos tiros dos vivos. Depois de morto pela polícia, vítima da armação de Decker, Boone ressuscita
e foge para Midian. Com a mordida que Boone havia recebido, pôde reviver, agora em Midian, unindo-se à
Raça da Noite.
Contudo, Midian acaba por ser vítima da perseguição de Decker contra Boone, e termina por ser
destruída pelo medo e pela irracionalidade humana diante da diferença. Barker usa esse elemento para realizar
discussões filosóficas e políticas que extrapolam as cenas de suspense e ação ou a narrativa que mostra o
massacre dos moradores de Midian. Portanto, fica evidente certa falta de esperança por parte de Barker no
comportamento humano e sua crítica ao irracionalismo manifesto pelo conhecimento religioso. Não por
acaso, em diversos momentos, Barker faz uso de referências religiosas. Decker, em determinado momento,
se referindo a Midian, afirma: “O que tem embaixo não é santo” (Barker, 1994, p. 161). Em outra passagem,
o policial que comanda o massacre de Midian pensa: “E, no dia seguinte, Deus querendo, seria como era
antes: mortos ficando mortos, e sodomia nas paredes, que era o lugar dela” (Barker, 1994, p. 181). O mesmo
policial, Eigerman, em determinado momento, fala para o padre que carrega para o massacre de Midian:
“Limite-se a usar o seu livrinho de exorcismos. Quero esses monstros de volta à merda de lugar de onde
vieram” (Barker, 1994, p. 198).
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Pode ser observado na narrativa de Barker elementos de subversão da narrativa em relação ao
monstro. Sabe-se que “a reação afetiva do personagem ao monstruoso nas histórias de horror não é
simplesmente uma questão de medo, ou seja, de ficar aterrorizado por algo que ameaça ser perigoso. Pelo
contrário, a ameaça mistura-se à repugnância, à náusea e à repulsa” (Carroll, 1999, p 39). Contudo, em Raça
da noite, ainda que os humanos possam sentir medo dos monstros de Midian, não são esses que os atacam e
aterrorizam. Pelo contrário, uma inversão de quem é realmente o monstro, que “na ficção de horror não
é letal como também e isso é da maior importância repugnante” (Carroll, 1999, p 39). O letal e o
repugnante não estão nas criaturas que se escondiam em Midian, mas nos humanos que a atacaram. Barker
diz, em determinado momento da narrativa, que Boone, diante da presença de Decker, “tivera orgulho de se
chamar um monstro, de exibir sua parte da Raça da Noite” (Barker, 1994, p. 125-6).
Outra personagem fundamental à narrativa é Lori. Barker afirma que Lori, depois de conviver com
os habitantes de Midian e de ver o massacre feito pelos humanos, mudou sua visão de mundo. Essa mudança
é assim descrita:
agora ela conhecia os mortos. Andara com eles, conversara com eles. Vira-os se
emocionar e chorar. Quem então eram os verdadeiros mortos? Aqueles cujo coração
não batia mais, que ainda conheciam a dor, ou seus torturadores de olhos esgazeados?
(Barker, 1994, p. 231).
Lori é o olhar externo à Raça da Noite que permite a Barker descrever a crueldade a que Midian é
submetida. Nesse sentido, pode-se afirmar que, “ao compartilhar com a Raça da Noite seu futuro incerto”,
Lori “aceita a alteridade e rejeita a violência de Eigerman” (Stokes & Stokes, 2023, p. 105). O olhar de Lori
expressa o ponto de vista de Barker diante dos acontecimentos contra Midian e a posição política assumida
pelo escritor diante do preconceito e da violência contra as diferenças. Portanto, Raça da noite pode ser visto
como uma obra de crítica à barbárie que a humanidade promove cotidianamente, destruindo seus membros
mais frágeis ou excluindo por meio da morte ou do exílio os seres indesejáveis.
O ódio pelo que é diferente, que levou à destruição de bruxas nos séculos passados, se assemelha à
destruição promovida contra Midian. Essa é a crueldade que Barker quer combater em sua obra. No discurso
que ressalta as diferenças como um elemento negativo, não existe espaço para diálogo. Eigerman, o policial
que comanda o massacre, enxerga os moradores de Midian como “aberrações, ainda mais estranhos do que
o normal. Coisas que desafiavam a natureza, que deviam ser tiradas debaixo de suas lápides e encharcadas
de gasolina” (Barker, 1994, p. 164).
Esse comportamento não se resumia ao policial, mas ao grupo de pessoas que se reúne para atacar
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Midian. O ódio aos monstros é explicitado na obra, mostrando uma turba descontrolada. Barker (1994, p.
218) assim narra: A massa estava louca por diversão. Os que tinham armas e rifles os haviam retirado dos
carros; os que tinham a sorte de estar viajando com cordas nas malas começavam a fazer nós; e aqueles que
não tinham corda nem armas haviam apanhado pedras.
Diante da diferença, não havia espaço para diálogo ou para reflexão, mas apenas para o irracionalismo
e a violência. Manipulada por um assassino em série, que instigou os ódios mais profundos e irracionais
daquelas pessoas, a turba, ainda que tenha perdido a batalha contra os monstros, conseguiu destruir o lar da
Raça da Noite e a obrigou a buscar um refúgio onde pudesse reconstruir suas vidas.
4. Considerações finais
Essa análise da obra de Barker procurou mostrar algumas das contribuições do escritor britânico para
a renovação do gênero de horror. Por meio da comparação com elementos das narrativas clássicas, foi
possível identificar algumas dessas contribuições presentes no livro Raça das Trevas, mostrando inovações
temáticas e técnicas importantes para o gênero. Pôde-se identificar, dessa forma, elementos criativos e
contribuições fundamentais por parte da obra de Barker.
Em grande medida essa contribuição se dá pela subversão de elementos da escrita clássica do gênero
em torno à representação dos monstros. Barker, em especial, mostra como a eventual monstruosidade pode
estar associada não à natureza ou à constituição física, mas às ações e ao comportamento dos personagens.
Sua obra, dessa forma, explicita uma preocupação política e aponta para necessárias reflexões acerca da
sociedade e de suas contradições.
Demonstra-se, assim, que a obra de Barker pode ser considerada de grande importância para a
literatura de horror das últimas décadas. Por um lado, sua obra mostra a permanência de elementos do gênero,
como o uso de técnicas literárias para construir a sensação de medo e do horror. Por outro, mostra o potencial
de renovação do gênero, como expressão da dinâmica da sociedade e das mudanças políticas, culturais e
sociais que vem ocorrendo nos últimos séculos.
Referências
Barker, C. (1994). Raça da noite. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
Carroll, N. (1999). A filosofia do horror ou paradoxos do coração. Campinas: Papirus.
Causo, R. S. (2003). Ficção científica, horror e fantasia no Brasil (1875-1950). Belo Horizonte: UFMG.
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