Scientia International Journal for Linguistics, Letters and Arts 9 of 12
divididos. Eram um só; viajavam pela mesma estrada na mesma mente e no mesmo corpo. E o que quer que
estivesse ao fim dessa estrada, morte ou glória, seria o destino de ambos” (Barker, 1994, p. 40). Contudo, ao
chegar em Midian, descobre que não havia cometido os crimes que a ele eram imputados; não era uma “besta”
ou um “monstro”. Portanto, neste caso, Boone não poderia fazer parte daquele lugar nem poderia entrar em
Midian. Boone insiste que é um monstro, mas, no final das contas, se não pertence ao lugar, deveria ser
devorado. Em sua confusão e agonia, descobre que “mesmo ali, entre os monstros de Midian, não era o seu
lugar. E, se não era ali, onde era?” (Barker, 1994, p. 51).
Nesse aspecto, observa-se uma subversão que Barker faz em relação às narrativas clássicas, afinal,
“no cânone ocidental, todo monstro deseja integrar a sociedade em que é criado, já que sua identidade, ou ao
menos sua existência, depende dela” (Vugman, 2018, p. 33). Boone, pelo contrário, por se considerar um
monstro, quer se integrar àquela comunidade escondida que, diante da perseguição sofrida em séculos
anteriores, se escondia da sociedade. Em determinado momento, afirma Barker (1994, p. 115): “Havia poucos
esconderijos onde os monstruosos podiam encontrar paz”. E aquela não era o lugar para Boone.
Boone, depois de atacado e mordido, consegue escapar, para ir ao encontro de outro monstro: aquele
que realmente havia cometido os assassinatos de que era acusado, seu psiquiatra, que era um frio serial killer
e havia forjado uma série de provas, inclusive a confissão de Boone de que este seria o assassino de alguns
dos crimes cometidos pelo médico. Embora escapando do ataque de um dos moradores de Midian, Boone
não escapou dos tiros dos vivos. Depois de morto pela polícia, vítima da armação de Decker, Boone ressuscita
e foge para Midian. Com a mordida que Boone havia recebido, pôde reviver, agora em Midian, unindo-se à
Raça da Noite.
Contudo, Midian acaba por ser vítima da perseguição de Decker contra Boone, e termina por ser
destruída pelo medo e pela irracionalidade humana diante da diferença. Barker usa esse elemento para realizar
discussões filosóficas e políticas que extrapolam as cenas de suspense e ação ou a narrativa que mostra o
massacre dos moradores de Midian. Portanto, fica evidente certa falta de esperança por parte de Barker no
comportamento humano e sua crítica ao irracionalismo manifesto pelo conhecimento religioso. Não por
acaso, em diversos momentos, Barker faz uso de referências religiosas. Decker, em determinado momento,
se referindo a Midian, afirma: “O que tem embaixo não é santo” (Barker, 1994, p. 161). Em outra passagem,
o policial que comanda o massacre de Midian pensa: “E, no dia seguinte, Deus querendo, seria como era
antes: mortos ficando mortos, e sodomia nas paredes, que era o lugar dela” (Barker, 1994, p. 181). O mesmo
policial, Eigerman, em determinado momento, fala para o padre que carrega para o massacre de Midian:
“Limite-se a usar o seu livrinho de exorcismos. Quero esses monstros de volta à merda de lugar de onde
vieram” (Barker, 1994, p. 198).