https://journals.scientia.international/SIJSocial
Scientia International Journal for
Social Sciences
Vol. 1, 1 (2026)
Tipo: Resenha | DOI: 10.56365/qe4vcw22
XXXX-XXXX © 2026 Os autores. Publicado por Scientia.International S.L. (Espanha).
Artigo de acesso aberto sob licença CC BY 4.0 (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0).
FRAGMENTOS DA TRAJETÓRIA DE BAUMAN:
resenha do livro Minha Vida
Rodrigo Koch1*
1Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, Brasil, https://orcid.org/0000-0002-6719-1839
* Autor correspondente: rodrigo-koch@uergs.edu.br
Resumo
Resenha crítica do livro Minha vida: fragmentos de uma autobiografia (BAUMAN 2024).
Palavras-chave: Bauman; Pós-Modernidade; Modernidade Líquida; Biografia.
Detalhes do artigo | Avaliação por pares aberta
Editado por:
Bruno César Alves Marcelino
Avaliado por:
Alan Dutra de Melo
Betânia Maciel
Citação:
Koch, R. (2026). FRAGMENTOS DA TRAJETÓRIA DE BAUMAN:
resenha do livro Minha Vida. Scientia International Journal for Social Sciences,
1(1), 28. https://doi.org/10.56365/qe4vcw22
Histórico do artigo
Recebido: 16/12/2025
Revisado: 13/02/2026
Aceito: 17/02/2026
Disponível: 14/03/2026
Scientia International Journal for Social Sciences 2 of 5
Bauman, Z. (2024). Minha vida: Fragmentos de uma autobiografia. Organização de I. Wagner, tradução
de B. Vargas. Rio de Janeiro: Zahar.
A obra Minha Vida: fragmentos de uma autobiografia (tradução do original My Life in Fragments, por
Berilo Vargas, Rio de Janeiro: Zahar, 2024, 238 páginas) composta por fragmentos autobiográficos de
Zygmunt Bauman, e organização da sua biógrafa Izabela Wagner, apresenta (como o próprio título sugere)
passagens e trechos de manuscritos do sociólogo polonês ao longo de trinta anos, nos quais ele teve a intenção
de deixar para seus familiares de gerações posteriores registros de sua trajetória de vida que considerou
importantes. O livro está dividido em Introdução, 7 Capítulos, Notas e Fontes. Izabela Wagner, também
socióloga polonesa, foi professora de sociologia no Collegium Civitas em Varsóvia até 2023 e autora de
Bauman: uma biografia. Atualmente ela é professora titular da Universi Paris Cité e, suas pesquisas
sociológicas se concentram em migrações, exílio de cientistas, intelectuais e músicos. Na Introdução, a
organizadora explica como foram construídas as narrativas através de diferentes textos escritos por Bauman
num período de três décadas, e cita as principais fontes do livro: um texto datilografado pelo sociólogo em
1987 endereçado às filhas; outras poucas páginas manuscritas de um diário de 1997 que questiona e dialoga
sobre biografias; e ainda um material escrito em polonês que estaria quase pronto para ser publicado no qual
detalha algumas passagens da sua vida. Este segundo documento citado por Wagner, inclusive, faz
brevemente uma reflexão sobre a escrita autobiográfica (gênero textual em primeira pessoa no qual o autor
narra a própria trajetória, baseando-se em memórias, experiências reais, emoções e reflexões). Alerto e
considero importante que os leitores antes de se aventurarem na obra Minha Vida, tenham um prévio
conhecimento da caminhada intelectual e científica de Zygmunt Bauman; portanto, ao final desta resenha,
deixo sugestões de leituras em uma ordem que considero importantes para a total compreensão deste livro.
O que torna importante esta leitura, somada a obra de Izabela Wagner é compreender sob o ponto de vista do
biografado, no caso o sociólogo Zygmunt Bauman, como ele próprio sentiu, vivenciou e descreveu passagens
importantes de sua vida.
No capítulo 1. A história de mais uma vida?, Bauman faz uma reflexão sobre a escrita autobiográfica
debatendo, ao seu estilo, com escritores e intelectuais sobre a subjetividade desses textos. A escrita
autobiográfica está focada, em boa medida, na subjetividade e na autoavaliação, permitindo ressignificar o
passado e organizar a identidade através de relatos psicológicos e, nem sempre cronológicos. Nestes
manuscritos iniciais, o sociólogo revela ter vivido o drama do antropólogo: quando alguém para perguntar,
não sabe o que perguntar; e quando sabe a pergunta que deve fazer, já não há mais ninguém para responder.
“Quando meus pais eram vivos não perguntei. Quando minha cabeça está repleta de perguntas não há mais a
quem perguntar” (BAUMAN 2024, p.30). Bauman questiona se escrever memórias não seria um ato de
desespero, mas admite que não sabe viver sem pensar e, não sabe pensar sem escrever; portanto, estaria
condenado a viver escrevendo. Ainda neste primeiro capítulo, ele ratifica o quanto tinha aversão às multidões
ou locais cheios de pessoas.
No capítulo seguinte (2. De onde venho), inicialmente, Bauman faz um esforço para juntar lapsos de
memória sobre a vida de seus pais e tece hipóteses de como teriam se conhecido. Depois mergulha na
caminhada matrimonial de sua irmã (sete anos mais velha que ele), refletindo sobre questões étnicas das
identidades judaico-polonesas. Sobre muitas famílias, inclusive a sua, o sociólogo pondera que eram “[...]
judaica por destino, polonesa por escolha; polonesa no conteúdo e na forma, apesar de judaica por origem”
(BAUMAN 2024, p.57). Quando a cidade de Poznan se tornou novamente uma cidade da Polônia pós
Primeira Guerra , muitos puderam escolher entre a cidadania alemã ou a polonesa e, então alguns judeus
a maioria de famílias ricas escolheram migrar para a Alemanha, mas foram expulsos cerca de vinte anos
depois sendo obrigados a cruzar a fronteira novamente. Na segunda parte deste capítulo, Bauman recorda a
difícil infância e os primeiros anos de escola, sendo perseguido por colegas (e até professores) e tendo que
driblar ações antissemitas. Poznan tornou-se a força motriz e reduto da Nacional-Democracia, partido que
buscava influenciar o restante do país com uma visão de uma vida sem judeus. Bauman não se lembra de ter
Scientia International Journal for Social Sciences 3 of 5
tido brinquedos na infância, e, portanto, durante anos, os livros que pegava emprestados em uma biblioteca
próxima foram seus amigos. “Tive alguns bons colegas, mas pouquíssimos amigos” (p.77). “Os poucos
amigos que fiz eram ‘casos especiais’ como eu” (p.78).
Naquela sala de aula, havia cinco de nós (ou pelo menos assim foi decidido pelo restante da classe). Um dos cinco morreria
no Holocausto; um mora até hoje em Varsóvia. Os outros três, que me incluem, deixaram seu país. Pelo menos
fisicamente. [...] E como o Ginásio Berger era o único na cidade que não praticava o numerus nullus, apenas dois meninos
judeus tinham ingressado no ensino secundário naquele ano em toda Poznan. (BAUMAN 2024, p.81)
O trecho destacado da obra resenhada revela, em certa medida, o quanto de preconceito o menino Bauman
enfrentou em seus primeiros anos de estudo. Numerus nullus foi uma das formas de tratamento adotadas na
Polônia no período entre guerras e, refere-se à exclusão total ou proibição de acesso de um grupo específico
(historicamente os judeus) a instituições de ensino, profissões ou cargos públicos.
Em 3. O destino de um refugiado e soldado, o sociólogo relata suas lembranças da Segunda Guerra
Mundial a partir da invasão alemã na Polônia em setembro de 1939. Como Poznan estava apenas 95
quilômetros da fronteira e era uma das maiores cidades daquele espaço geográfico, a família Bauman se viu
obrigada, ou melhor, literalmente ‘arrastada’ para o leste em sua fuga pela sobrevivência. De forma rápida,
Zygmunt conta como se deu a separação da ir que juntamente com sua filha e marido obtiveram
passaportes britânicos e optaram por migrar para a Palestina , enquanto ele, o pai e a mãe se refugiaram
primeiramente em Molodeczno (antes de passarem por vários pontos entre a Polônia e territórios soviéticos).
Lá, Bauman teve uma breve aceitação de sua condição identitária, pois a língua usada era uma mistura de
russo, polonês, iídiche e um dialeto camponês que alguns intelectuais sonhavam em elevar à condição de
bielorrusso literário. A categoria a que cada um pertencia era acidental ou por escolha. “Encontrei minha Sião
em Molodeczno. Ingressei no equivalente local ao Hashomer Hatzair o Komsomol” (BAUMAN 2024,
pp.103-104). No entanto, a quebra do acordo Hitler-Stálin, jogou os Bauman para mais distante: Gorki (atual
Nizhny Novgorod, Rússia). Neste local, o sociólogo viveu tempos de sua juventude sob imensas dificuldades
em campos de trabalho insalubres.
Eu estava faminto. Viveria com fome pelos próximos dois anos e meio, até minha vida no exército começar. Não faminto
de vez em quando, mas faminto 24 horas por dia, sete dias por semana. Eu tinha fome enquanto esperava a comida, e
fome depois de comer. [...] Até hoje não consigo dormir se não houver pão em casa. E jamais consegui me entusiasmar
tanto com qualquer alimento por mais refinado que seja como me entusiasmo com pão. Pão, afinal, é o que importa.
(BAUMAN 2024, p.108)
Vale destacar as grandes dificuldades que o pai teve para encontrar algum emprego e o quanto os dotes
culinários da mãe (com eles, mas especialmente com os soldados para os quais ela cozinhava) garantiram o
pouco que comer neste período. Ao completar os estudos secundários, Bauman se alistou e aguardou
ansiosamente pelo chamamento que veio somente quando completou dezoito anos. Foi recrutado para uma
divisão bastante estranha, responsável por cuidar inicialmente do trânsito em Moscou. “Éramos, por assim
dizer, bandidos recrutados para tomar conta do cofre. Impossível imaginar gente como nós simpatizando com
os moscovitas se houvesse algum problema ...” (BAUMAN 2024, p.116). Mais adiante, no front, ajudou a
libertar a Polônia dos alemães, mas Foi preciso que meio século se passasse para que eu soubesse, pelos
jornais da minha terra natal, que tudo aquilo que eu estava fazendo com meus companheiros em armas era
feito em nome da escravização da pátria, eo da sua libertação” (BAUMAN 2024, p.129). Nesta passagem,
o sociólogo faz uma breve crítica velada do fato da Polônia ter sido “entregue” ao regime soviético após o
desfecho da Segunda Guerra.
No capítulo 4. Amadurecimento, Bauman analisa brevemente como foram as experiências diversas dos
judeus-poloneses durante a Segunda Guerra Mundial e, como posteriormente, o retorno de alguns
(refugiados) e a permanência de outros (que escaparam do massacre em esconderijos e/ou permanente fuga)
voltou a causar desconforto aos que acreditavam ser “poloneses puros”. Bauman não desejava continuar no
exército, mas acabou aceitando de bom grado uma posição que lhe foi atribuída para a reconstrução da
Polônia, agora sob o regime socialista-soviético. Desempenhava um cargo que lhe permitia estudar, mas
Scientia International Journal for Social Sciences 4 of 5
quando quis retomar a vida acadêmica teve negado seus atestados da Universidade de Gorki, onde era aluno
de Física; e então, como já se sentia atraído por estudos diretamente envolvidos em ‘consertar a sociedade’,
ingressou na Academia de Ciências Políticas de Varsóvia, onde conheceu Janina. “E certamente não foi por
acaso que nunca deixei de amá-la nos sessenta anos seguintes” (BAUMAN 2024, p.149). No entanto, sua
condição sionista o fez perder o emprego no exército, representando um misto de tragédia e alívio.
Tragédia: nós três, Jasia, eu e Ania, de três anos, ficamos praticamente sem pão e ameaçados de perder nossa moradia
funcional. [...] E alívio: anos de medo, de uma vida de permanente prontidão e sujeita aos mesmos padrões rígidos a que
todos estavam sujeitos, finalmente ficaram para trás. (BAUMAN 2024, p. 152)
A solução foi candidatar-se a professor assistente na Universidade de Varsóvia, sendo aceito no
Departamento de Filosofia. No entanto, seus artigos revisionistas lançaram dúvidas sobre suas posições
políticas, causando uma intensa e constante vigília sobre Bauman e lhe trazendo certos empecilhos
profissionais. “O telefone de casa, já grampeado havia tempos, não parava de tocar, com ameaças anônimas
[...]” (BAUMAN 2024, p.166). Inclusive, anos após deixar a Polônia e, já vivendo em Leeds (Inglaterra), o
sociólogo relata duas situações constrangedoras de perseguição à família. Os ‘agentes’ estavam atrás de
documentos de Janina e do neto Michal Sfard, na época, jovem advogado que começava a se envolver com
o ativismo político, especializado em leis internacionais sobre direitos humanos.
No curto capítulo seguinte (5. Quem sou eu?), Bauman novamente faz reflexões sobre a condição judaica-
polonesa e, como toda sua trajetória impactou em sua identidade. São outros fragmentos de sua escrita
autobiográfica. Há duas passagens que julgo importantes neste capítulo:
Sinto-me responsável pela minha condição polonesa da mesma maneira que assumo toda a responsabilidade por meu
comunismo, por meu socialismo da vida inteira, por minha rejeição de Israel, por minha decisão de terminar a vida como
pessoa desterrada, extraterritorial e súdito leal da Coroa. (BAUMAN 2024, p.173)
Talvez a verdadeira questão seja parar de comparar, de uma vez por todas. Acho que o mal está na própria compulsão de
escolher, e na maldição de ser escolhido. Quando se deseja pertencer, não como evitar excluir aqueles que não se
admite como da mesma espécie. Pertencer pode significar dividir, e estabelecer dois pesos e duas medidas. Onde os
padrões dividem, a moralidade acaba. Ao traçarmos a linha entre nós e eles, apagamos a linha entre o bem e o mal.
(BAUMAN 2024, p.177)
No penúltimo capítulo (6. Antes que escureça), o sociólogo faz uma espécie de viagem no tempo e avalia
as ‘feridas’ deixadas tanto pelo nazismo alemão como pelo comunismo soviético na Polônia e, o quanto isto
também prejudicou as gerações seguintes na busca por uma identidade, causando novas segregações no país.
A ocupação por Hitler deixou muitas feridas no corpo e na alma da nação, mas a hipocrisia não foi uma delas. No entanto,
essa era exatamente a ferida que o totalitarismo stalinista queria infligir, e, num grau ainda maior, também o autoritarismo
que se seguiu. A produção em massa de hipocrisia era característica inseparável, apesar de não intencional e não admitida,
do comunismo soviético e daqueles regimes que esse comunismo estava preparado para tolerar em sua “esfera de
influência”. (BAUMAN 2024, p.196)
Bauman avalia a condição política contemporânea da Polônia a partir dos anos 2000, e como a religião foi
misturada neste contexto. “A moda contemporânea de assustar as pessoas com a ‘politização da religião’
desvia a atenção do objetivo real das lutas polonesas de hoje e das que são travadas no resto do mundo”
(BAUMAN 2024, p.207). O sociólogo finaliza esta parte, afirmando que a rotina que torna o mundo imutável
e entediante o torna ao mesmo tempo seguro.
“É hora de refletir sobre as lições que resultam de tudo isso” (BAUMAN 2024, p.219); assim Bauman, inicia
o último capítulo (7. Olhando para trás pela última vez), no qual tece breves comentários sobre as vantagens
de ainda ser criança quando somos e, temos o futuro inteiro pela frente, com possibilidades infinitas. Neste
texto final, o sociólogo também faz uma breve reflexão sobre suas escolhas e as escolhas de sua nação.
Encerro esta resenha, recomendando a leitura da obra Minha Vida: fragmentos de uma autobiografia, com
a ressalva para os leitores que desejarem se aprofundar mais na vida e nos pensamentos de Zygmunt Bauman,
de que são necessárias leituras prévias da obra baumaniana. Entre as teorias do sociólogo, a principal delas
trata-se da ‘Modernidade Líquida’, expressa em detalhes no livro homônimo e, que deu origem a outros
Scientia International Journal for Social Sciences 5 of 5
títulos nos quais ele discorre analogias sobre a liquidez e a condição pós-moderna das sociedades. Em poucas
palavras, a ‘Modernidade Líquida’ é uma condição de total fluidez dos hábitos, posicionamentos políticos-
sociais, pensamentos, e das instituições em geral em contraposição a solidez que apresentavam em um
passado recente do pós-guerra. Portanto, o livro aqui resenhado, se destina prioritariamente - num primeiro
momento - à especialistas em Bauman. Outra teoria importante do sociólogo de se conhecer é a ‘Sociedade
de Consumidores’, na qual ele caracteriza as próprias pessoas como produtos a serem consumidos
diariamente e, como esta situação contemporânea causa angústia permanente para que qualquer indivíduo se
torne uma mercadoria atraente. Então, a leitura de Minha Vida, por vezes, requer conhecimentos além das
notas explicativas e apresenta certas lacunas históricas. Assim sendo, destaco que a obra de Izabela Wagner,
Bauman: uma biografia, acaba por ser muito mais completa. O que o livro Minha Vida acrescenta é o ponto
de vista do próprio biografado. À lista de sugestões que segue, acrescento o livro da eterna companheira,
Janina Bauman - Inverno na Manhã: uma jovem no gueto de Varsóvia (Zahar, 2005) -, para melhor
compreensão dos horrores que acometeram os judeus-poloneses na Segunda Guerra Mundial.
Referências
Bauman, Z. (2024). Minha vida: Fragmentos de uma autobiografia. Organização de I. Wagner, tradução
de B. Vargas. Rio de Janeiro: Zahar.
Leituras sugeridas
Wagner, I. (2020). Bauman: Uma biografia. Tradução de C. A. Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar.
Bauman, Z. (1998). Modernidade e holocausto. Tradução de M. Penchel. Rio de Janeiro: Zahar.
Bauman, Z. (2001). Modernidade líquida. Tradução de P. Dentzein. Rio de Janeiro: Zahar.
Bauman, Z. (2004). Amor líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos. Tradução de C. A. Medeiros.
Rio de Janeiro: Zahar.
Bauman, Z. (2008). Vida para consumo: A transformação das pessoas em mercadoria. Tradução de C.
A. Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar.