Scientia International Journal for Social Sciences 8 of 12
O editorial do I Encontro Nacional de Mulheres Negras de 1988, delineia toda a trajetória de preparação
do evento, sua estruturação e a importância desse encontro. O texto também esclarece as razões que tornaram
necessário esse encontro e a formação do MMN, destacando seu papel histórico no desenvolvimento do
pensamento político e social das mulheres negras no Brasil:
O I Encontro Nacional de Mulheres Negras será um marco na nossa história, menos pelo seu caráter político que ser por
sua função ideológica. Esse encontro tem por finalidade precípua, congregar mulheres negras de todo território nacional
e levar nos refletir sobre a verdadeira razão que nos torna diferentes, ou razão pelo qual nos é dado tratamento diferenciado
dos demais indivíduos que compõe a sociedade. (Nzinga, 1988: 2)
Já nesse primeiro parágrafo, as mulheres negras já afirmam que o I Encontro é um marco histórico, não
por sua seriedade política, mas em especial por seu papel na questão de valores. O que aquelas mulheres
defendiam era que o encontro não seria somente sobre questões práticas ou políticas, que naquele momento
estavam em processo de maturação. Elas queriam mais do que reivindicações, transformações legais ou
direitos: as mulheres negras estavam pleiteando algo mais, que estaria no campo da subjetividade, simbólico,
ideológico. Em suma, o Encontro criou possibilidades de pensar, discutir questões maiores e diversas, como
identidade, valores, lutas e a ressignificação do ser mulher negra.
O Encontro buscou reunir o maior número possível de mulheres negras em todo país, construindo um lugar
de fala, trocando vivências. O objetivo delas era construir uma teia de cooperação e assim consolidar o MMN
no país a partir das próprias mulheres negras. Quando elas chamam atenção para o que as torna diferentes, as
mulheres negras estão, na verdade, falando: “Oh! Somos mais que uma mulata ou uma doméstica”. O
tratamento diferenciado pontuado por elas é o que deve ser entendido. Por qual o motivo as mulheres negras
são tratadas diferentemente na sociedade brasileira? O tratamento diferenciado reforça o pensamento do
racismo estrutural e interseccionaliza a combinação de raça, classe e gênero. Dessa forma as mulheres negras
refletem sobre o que é ser mulher negra no Brasil, por isso nesse encontro a proposta foi de analisar as fontes
desigualdades raciais e sociais e as discriminações, refletir sobre a experiências e vivências mais profundas
e os enfrentamentos.
Partimos do pressuposto de que os movimentos sociais almejam alcançar mudanças sociais e políticas a
partir das tensões sociais e dos embates políticos. Logo, poderíamos entender que a partir dos variados
encontros as brechas que estavam sendo abertas precisavam dar lugar a vozes de não vitimização e sim de
resistência, gerando uma noção pertencimento e cidadania baseadas na ancestralidade através de processos
que demarcaram e marcaram olhares de autoformação autodefinido com posturas de ressignificação e
resistências. Dessa forma, podemos também citar a linha de pensamento do editorial informativo Nzinga, que
mostra como nos anos 1970 houve muitos avanços na criação de conselhos estaduais e municipais, delegacias
de mulheres, e também com mais atuações de mulheres negras nos encontros, reuniões e fóruns e foram
significativos para a luta dos negros. O editorial ainda ponta que
O que está em discussão na realidade é o espaço em que cada um deseja atuar. E nós do NZINGA, optamos por trabalhar
com as questões da Mulher Negra. E é por acreditar nisto que estamos participando efetivamente da organização do I
ENCONTRO NACIONAL DE MULHERES NEGRAS, ideia lançada por um grupo de mulheres negras presentes ao IX
Encontro Nacional Feminista, na cidade de Garanhus (PE), em setembro de 1987. Entre os objetivos do Encontro está "...
a elaboração de propostas políticas que façam avançar a organização das mulheres negras, colocando para o mundo a
existência do Movimento de Mulheres Negras no Brasil de forma unitária e diferentes vertentes políticas". E ainda, por
acreditar nisto é que nós estaremos no dia 2 de dezembro, no Encontro Nacional, em algum lugar do Rio de Janeiro.
(Nzinga, 1988: 2)
O editorial do I Encontro Nacional, publicado na revista Nzinga, é em si mesmo um exemplo concreto de
produção de saberes situada. Ao afirmar que o encontro teria uma função ideológica antes que política, as
mulheres negras estavam formulando uma teoria própria sobre o que significa transformação social — uma
teoria que não parte de categorias acadêmicas, mas das experiências de quem vive a opressão cotidianamente.
Da mesma forma, os boletins e redes de comunicação do MMN funcionaram como instrumentos de
sistematização e circulação de saberes coletivos, criando uma memória política própria que desafiava o