Scientia International Journal for Social Sciences 4 of 5
quando quis retomar a vida acadêmica teve negado seus atestados da Universidade de Gorki, onde era aluno
de Física; e então, como já se sentia atraído por estudos diretamente envolvidos em ‘consertar a sociedade’,
ingressou na Academia de Ciências Políticas de Varsóvia, onde conheceu Janina. “E certamente não foi por
acaso que nunca deixei de amá-la nos sessenta anos seguintes” (BAUMAN 2024, p.149). No entanto, sua
condição sionista o fez perder o emprego no exército, representando um misto de tragédia e alívio.
Tragédia: nós três, Jasia, eu e Ania, de três anos, ficamos praticamente sem pão e ameaçados de perder nossa moradia
funcional. [...] E alívio: anos de medo, de uma vida de permanente prontidão e sujeita aos mesmos padrões rígidos a que
todos estavam sujeitos, finalmente ficaram para trás. (BAUMAN 2024, p. 152)
A solução foi candidatar-se a professor assistente na Universidade de Varsóvia, sendo aceito no
Departamento de Filosofia. No entanto, seus artigos revisionistas lançaram dúvidas sobre suas posições
políticas, causando uma intensa e constante vigília sobre Bauman e lhe trazendo certos empecilhos
profissionais. “O telefone de casa, já grampeado havia tempos, não parava de tocar, com ameaças anônimas
[...]” (BAUMAN 2024, p.166). Inclusive, anos após deixar a Polônia e, já vivendo em Leeds (Inglaterra), o
sociólogo relata duas situações constrangedoras de perseguição à família. Os ‘agentes’ estavam atrás de
documentos de Janina e do neto Michal Sfard, na época, jovem advogado que começava a se envolver com
o ativismo político, especializado em leis internacionais sobre direitos humanos.
No curto capítulo seguinte (5. Quem sou eu?), Bauman novamente faz reflexões sobre a condição judaica-
polonesa e, como toda sua trajetória impactou em sua identidade. São outros fragmentos de sua escrita
autobiográfica. Há duas passagens que julgo importantes neste capítulo:
Sinto-me responsável pela minha condição polonesa da mesma maneira que assumo toda a responsabilidade por meu
comunismo, por meu socialismo da vida inteira, por minha rejeição de Israel, por minha decisão de terminar a vida como
pessoa desterrada, extraterritorial e súdito leal da Coroa. (BAUMAN 2024, p.173)
Talvez a verdadeira questão seja parar de comparar, de uma vez por todas. Acho que o mal está na própria compulsão de
escolher, e na maldição de ser escolhido. Quando se deseja pertencer, não há como evitar excluir aqueles que não se
admite como da mesma espécie. Pertencer só pode significar dividir, e estabelecer dois pesos e duas medidas. Onde os
padrões dividem, a moralidade acaba. Ao traçarmos a linha entre nós e eles, apagamos a linha entre o bem e o mal.
(BAUMAN 2024, p.177)
No penúltimo capítulo (6. Antes que escureça), o sociólogo faz uma espécie de viagem no tempo e avalia
as ‘feridas’ deixadas tanto pelo nazismo alemão como pelo comunismo soviético na Polônia e, o quanto isto
também prejudicou as gerações seguintes na busca por uma identidade, causando novas segregações no país.
A ocupação por Hitler deixou muitas feridas no corpo e na alma da nação, mas a hipocrisia não foi uma delas. No entanto,
essa era exatamente a ferida que o totalitarismo stalinista queria infligir, e, num grau ainda maior, também o autoritarismo
que se seguiu. A produção em massa de hipocrisia era característica inseparável, apesar de não intencional e não admitida,
do comunismo soviético e daqueles regimes que esse comunismo estava preparado para tolerar em sua “esfera de
influência”. (BAUMAN 2024, p.196)
Bauman avalia a condição política contemporânea da Polônia a partir dos anos 2000, e como a religião foi
misturada neste contexto. “A moda contemporânea de assustar as pessoas com a ‘politização da religião’
desvia a atenção do objetivo real das lutas polonesas de hoje e das que são travadas no resto do mundo”
(BAUMAN 2024, p.207). O sociólogo finaliza esta parte, afirmando que a rotina que torna o mundo imutável
e entediante o torna ao mesmo tempo seguro.
“É hora de refletir sobre as lições que resultam de tudo isso” (BAUMAN 2024, p.219); assim Bauman, inicia
o último capítulo (7. Olhando para trás – pela última vez), no qual tece breves comentários sobre as vantagens
de ainda ser criança quando somos e, temos o futuro inteiro pela frente, com possibilidades infinitas. Neste
texto final, o sociólogo também faz uma breve reflexão sobre suas escolhas e as escolhas de sua nação.
Encerro esta resenha, recomendando a leitura da obra Minha Vida: fragmentos de uma autobiografia, com
a ressalva para os leitores que desejarem se aprofundar mais na vida e nos pensamentos de Zygmunt Bauman,
de que são necessárias leituras prévias da obra baumaniana. Entre as teorias do sociólogo, a principal delas
trata-se da ‘Modernidade Líquida’, expressa em detalhes no livro homônimo e, que deu origem a outros