Scientia International Journal for Social Sciences 10 of 12
Ainda, a elevação dos termos religiosos em anos eleitorais (2020 e 2022) sugere instrumentalização
estratégica da religião para fins eleitorais. O aumento da correlação Deus-Presidente de 0,347 em 2021 para
0,511 em 2022 demonstra uso calculado de símbolos religiosos. Esta instrumentalização não é fenômeno
exclusivamente brasileiro, encontrando paralelos nos populismos de direita globais analisados por Löwy
(2019) e nas estratégias de líderes como Viktor Orbán na Hungria e Donald Trump nos Estados Unidos.
Contrariamente à percepção comum sobre influência evangélica, os dados demonstram busca limitada de
pressão para influenciar na formulação de políticas públicas. Alguns fatores podem explicar essa limitação:
heterogeneidade do grupo evangélico, divisões internas à identidade coletiva neoconservadora e sistema de
freios e contrapesos da democracia brasileira (SOARES, 2025).
Primeiramente, a comunidade evangélica brasileira não constitui bloco monolítico. Divisões internas sobre
economia, segurança e mesmo questões morais limitaram a capacidade de pressão unificada. Além disso,
grupos militares, econômicos e técnicos dentro do governo competem com a influência religiosa.
Os resultados contribuem para o debate sobre secularização no Brasil, demonstrando que, mesmo em
governo com forte apoio evangélico, a laicidade do Estado, ao menos no campo discursivo, manteve-se
preservada vista a baixa pressão evangélica contra o governo, de modo que a identidade política teve
prevalência. Esta descoberta apoia a tese de Mariano (2011) sobre a "laicidade à brasileira", caracterizada
por separação formal com influência simbólica persistente, mas dentro de limites institucionais democráticos.
Portanto, a pesquisa identificou papel da religião na polarização política brasileira, servindo mais como
marcador identitário que como fonte de pressão por políticas específicas. Esta polarização, embora pareça
intensa no plano discursivo, não se mostrou na realidade. O padrão observado sugere que a religião, no
contexto brasileiro contemporâneo, opera mais como recurso de mobilização política que como fonte de
autoridade política autônoma; além de como defensora de identidades políticas previamente dadas.
6. Conclusões
Esta pesquisa analisou 72.750 tweets de políticos e líderes religiosos durante o governo Bolsonaro,
revelando padrões específicos na relação entre religião e política no Brasil contemporâneo.
Temas religiosos ganharam proeminência principalmente em anos eleitorais, confirmando uso
instrumental. A correlação Deus-Presidente aumentou significativamente em 2022 (0,511), contrastando com
valores menores em anos não eleitorais. Observou-se também a redução consistente na discussão de direitos
sexuais e reprodutivos, com queda entre 2021 e 2022, demonstrando que temas morais tradicionais não foram
centrais mesmo em governo conservador.
Líderes como Silas Malafaia e Marco Feliciano atuaram mais defendendo o governo que pressionando por
pautas específicas, funcionando como porta-vozes políticos em linguagem religiosa. O crescimento constante
da associação discursiva entre Bolsonaro e símbolos nacionais superou largamente correlações religiosas.
Os resultados questionam interpretações simplistas sobre dessecularização, demonstrando que influência
religiosa contemporânea opera dentro de marcos seculares, competindo com outras fontes de autoridade e
identidade, como a política. A pesquisa confirma, ao menos em termos comunicacionais, que o
neoconservadorismo brasileiro articula religião com outros elementos ideológicos, sendo a identidade
política, não religiosa, o fator determinante.
Contudo, mais estudos se fazem necessários para verificar se ss instituições democráticas brasileiras
demonstraram capacidade de resistir a pressões religiosas extremas, mantendo laicidade formal mesmo sob
governo com forte retórica religiosa. O caso brasileiro ilustra limitações estruturais do populismo religioso
em democracias constitucionais, onde sistema de freios e contrapesos restringe transformações radicais. De