https://journals.scientia.international/SIJSocial
Scientia International Journal for
Social Sciences
Vol. 1, 1 (2026)
Tipo: [Artigo de Pesquisa] | DOI: 10.56365/dwg0pg25
XXXX-XXXX © 2026 Os autores. Publicado por Scientia.International S.L. (Espanha).
Artigo de acesso aberto sob licença CC BY 4.0 (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0).
A Comunicação do Governo Bolsonaro:
Análise Quanti-Quali do Twitter (2019 - 2022)
Evanway Sellberg Soares 1*
1 Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho UNESP, São Paulo, Brasil; https://orcid.org/0000-0001-8969-9177
* Autor correspondente: evanways@yahoo.com.br.
Resumo
Este estudo investiga a busca de pressão de grupos evangélicos neoconservadores na formulação de políticas públicas no Brasil
durante o governo Bolsonaro (2019-2022). O objetivo principal foi identificar temáticas recorrentes nos discursos proferidos no
Twitter (atual X) de figuras políticas ligadas ao governo e líderes religiosos, buscando compreender as dinâmicas de influência e
a relação entre a agenda religiosa e as ações governamentais. A pesquisa empregou metodologia mista, combinando análise
quantitativa e qualitativa de 72.750 tweets coletados entre janeiro de 2019 e dezembro de 2022, utilizando o programa Twitonomy
para coleta e o software MAXQDA para análise. O corpus incluiu manifestações de Jair Bolsonaro, seus filhos Eduardo e Carlos,
ministros da Educação e da Mulher, Família e Direitos Humanos, além de líderes religiosos como Marco Feliciano e Silas Malafaia.
Os resultados revelaram que temas religiosos, como "Deus" e pautas de "costumes", ganharam destaque principalmente em anos
eleitorais, e que a relação entre religiosos e o governo baseou-se mais em identidade política neoconservadora do que em princípios
religiosos específicos. A análise demonstrou que o apoio vocal de líderes religiosos fundamentou-se mais na defesa da identidade
neoconservadora do que na pressão para implementação de pautas morais ou religiosas específicas.
Palavras-chave: Evangélicos; Neoconservadorismo; Governo Bolsonaro; Redes Sociais; Política Brasileira.
Detalhes do artigo | Avaliação por pares aberta
Editado por:
Bruno César Alves Marcelino
Avaliado por:
Fabio do Vale
Gelson Weschenfelder
Citação:
Sellberg Soares, E. (2026). A Comunicação do Governo Bolsonaro: Análise
Quanti-Quali do Twitter (2019 - 2022). Scientia International Journal for Social
Sciences, 1 (1), 29. https://doi.org/10.56365/dwg0pg25
Histórico do artigo
Recebido: 16/12/2025
Revisado: 02/04/2026
Aceito: 02/04/2026
Disponível: 27/05/2026
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1. Introdução
Um dos grandes debates das últimas décadas nas ciências sociais refere-se à teoria da secularização,
defendida fortemente por Berger (1985) em "O Dossel Sagrado". O autor argumentava que a secularização
seria o processo de subtração do poder religioso sobre as esferas culturais e societais, resultando em
pluralismo religioso que enfraqueceria os monopólios de sentido e levaria à privatização da religião.
Posteriormente, Berger (2000) reviu sua posição, reconhecendo a existência de uma dessecularização
caracterizada pelo crescimento de "movimentos conservadores, ortodoxos ou tradicionalistas" (p. 13)
religiosos.
Casanova (2006) propõe uma abordagem mais nuançada, distinguindo três aspectos da secularização:
diferenciação institucional, declínio das crenças religiosas e privatização da religião. Para o autor, apenas o
primeiro aspecto seria universal na modernidade. Esse aspecto é o que é entendido hoje como laicidade
*
.
Mariano (2011) analisa a "laicidade à brasileira", caracterizada por uma separação formal entre Estado e
Igreja, mas com influência religiosa persistente no espaço público. O autor destaca que "sem a secularização
do Estado brasileiro e a garantia estatal à liberdade religiosa, o pentecostalismo dificilmente poderia usufruir
das condições necessárias para granjear tamanho sucesso numérico, midiático e político" (MARIANO, 2002,
p. 20). Assim, o Brasil apresenta-se como campo profícuo para o estudo das relações entre Estado e Igreja,
especialmente considerando a mudança de atuação dos grupos evangélicos após a redemocratização.
Durante a Constituinte de 1986, os evangélicos mobilizaram-se por um moralismo religioso focado em
ataques ao comunismo, às atividades sexuais e direitos reprodutivos, e proteção à família (PIERUCCI, 1987,
1989). Essa posição conservadora manteve-se nos mandatos posteriores, intensificando-se com o crescimento
numérico evangélico e mudanças em sua forma de atuação política (CARVALHO; SIVORI, 2017),
culminando no apoio massivo a Jair Bolsonaro em 2018.
O apoio evangélico a candidatos é uma constante na política brasileira pós-redemocratização. Houve apoio
a Collor, Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff, sempre baseado em pautas morais. A primeira
grande divisão ocorreu em 2002, quando a Assembleia de Deus e Quadrangular apoiaram José Serra,
enquanto a Igreja Universal do Reino de Deus apoiou Luís Inácio Lula da Silva (BURITY, 2006, p. 198).
Com Dilma Rousseff, o cenário mudou devido à pauta do aborto utilizada em 2010. Durante seu mandato,
enfrentou forte oposição da Frente Parlamentar Evangélica devido às pautas morais, resultado de um ethos
*
Se entende aqui o princípio da laicidade como a separação formal entre Estado e grupos religiosos, como apresentado no Brasil
desde a constituição de 1891, mas que engloba um conjunto de processos no decorrer da história que apresenta uma gama de
tensões, e que, no caso do Brasil, tem maior relações com grupos evangélicos e católicos. Para mais informações sobre as discussões
entorno dos conceitos de secularização e laicidade são sugeridos os estudos feitos por:
CATROGA, Fernando. Entre Deuses e Césares: Secularização, laicidade e religião civil. Coimbra: Almedina, 2010.
WILLAIME, Jean-Paul European Integration, Laïcité and Religion, Religion, State and Society, 37:1-2, 23-35, 2009.
SILVA, Luis Gustavo Teixeira da Silva. Laicidade do Estado: dimensões analítico-conceituais e suas estruturas normativas de
funcionamento. Sociologias, Porto Alegre, ano 21, n. 51, maio-ago, p. 278-304, 2019.
E para o caso específico no Brasil se sugerem os estudos de:
CAMURÇA, Marcelo Ayres. CAMURÇA, M. A. “A questão da laicidade no Brasil: mosaico de configurações e arena de
controvérsias”. Horizonte, vol. 15, nº 47: 855-886, 2017.
_______. Um poder evangélico no estado brasileiro? Mobilização eleitoral, atuação parlamentar e presença no governo Bolsonaro.
Revista NUPEM, Campo Mourão, v. 12, n. 25, p. 82-104, jan./abr, 2020.
MARIANO, Ricardo. Laicidade à brasileira. Católicos, pentecostais e laicos em disputa na esfera pública. Civitas, Porto Alegre,
v. 11, n. 2, p. 238-258, maio-ago. 2011.
_______. Expansão e ativismo político de grupos evangélicos conservadores: Secularização e pluralismo em debate. Civitas: Pòrto
Alegre. v. 16, n. 4, p. 710-728, out dez, 2016.
BOSSIO, María Pilar García. La laicidad problematizada. Su uso para pensar organismos estatales. Religião & Sociedade; 38(2);
148-173; 2018.
TANAKA, Marcela. "Secularização, Laicidade E Espaço Público: Como Pensar A Política Contemporânea Brasileira À Luz Da
Religião?". Religião &Amp; Sociedade, vol 40, no. 3, pp. 169-188, 2020.
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cristão conservador (TADVALD, 2015), culminando no apoio do segmento ao impeachment de 2016 e
posterior apoio a candidatura de Jair Bolsonaro em 2018.
O governo Bolsonaro é reconhecido como pertencente ao conjunto de governos de extrema-direita que se
articulam com valores e grupos religiosos neoconservadores, similar a Donald Trump nos Estados Unidos,
Marine Le Pen na França e Viktor Orbán na Hungria (LÖWY, 2019).
Nesse contexto, a literatura especializada identifica transformações na atuação política evangélica.
Almeida (2017) aponta para uma "onda conservadora" que articula valores religiosos com posições políticas
de direita. Machado (2018) analisa como o discurso cristão sobre a "ideologia de gênero" tornou-se central
nas disputas políticas contemporâneas, principalmente focados em posições conservadoras
.
O neoconservadorismo brasileiro, conforme analisado por Almeida (2018), articula liberalismo econômico
com conservadorismo moral, utilizando símbolos religiosos para legitimação política. Essa combinação
distingue-se de conservadorismos tradicionais por sua adaptação à modernidade capitalista.
Contudo, Prandi e Santos (2017) demonstram que, apesar da visibilidade da bancada evangélica, existe
heterogeneidade significativa no eleitorado evangélico, questionando generalizações sobre comportamento
político uniforme.
Assim, este estudo insere-se no debate sobre secularização, contribuindo para as discussões sobre
influência religiosa no Estado, tanto na ação de políticos eleitos com capital religioso quanto na utilização de
preceitos religiosos para mobilização do debate público.
2. Objetivos da Pesquisa
Esse trabalho buscou compreender a relação entre grupos evangélicos neoconservadores e o governo
Bolsonaro, analisando se esses grupos buscaram pressionar o governo para a formulação de políticas
públicas
ou se atuam mais como grupos de apoio político. Para isso, foi necessário identificar as temáticas
Para esse trabalho, não se faz necessária uma pesquisa extensa sobre a evolução do conceito de conservadorismo e suas
discussões; dado o recorte temporal da pesquisa e seu objeto de estudo toma-se como referência o conceito de conservador como
apresentado por Almeida (2017), um termo em disputa e que no Brasil decorre de quatro forças: econômica; moral; securitária e
interacional. Econômica, pois se apresenta como meritocrática e empreendedora, ligada à teologia da prosperidade propagada por
denominações neopentecostais, assim, perpetuando a estrutura econômica e social dada (SMITH, 2019; ARAGUSUKU, 2019), o
que em ambos os casos aparece como uma contradição, visto que grande parte da população afetada negativamente pelas políticas
neoliberais são do segmento evangélico. Moral, no sentido de defender contra os avanços do secularismo nos comportamentos e
valores, o que resultaria, segundo o autor, na tentativa para a efetivação da moralidade pentecostal na ordem legal, tendo entre os
protagonistas dessas ações, Marco Feliciano e Silas Malafaia. Securitária no sentido de apresentar uma postura mais repressiva e
punitiva dos aparelhos de segurança do Estado, ligadas à “redução da maioridade penal, a lei do desarmamento, a lei antiterror, a
política de encarceramento, a militarização de parcela da gestão pública, entre outros” (ALMEIDA, 2017, p. 22). Interacional, no
sentido da forma como o movimento conservador se relaciona com outros grupos e, nesse sentido, Almeida aponta para a
mobilização dos termos vingança, fobia e ódio na onda conservadora. Para uma discussão mais extensa e aprofundada sobre o
conceito, recomenda-se como ponto de partida:
SOUZA, Jamerson Murillo Anunciação de. Tendências ideológicas do conservadorismo. Tese (Doutorado). Universidade Federal
de Pernambuco: Pernambuco. (2016).
CAZETTA, Felipe. Intelectuais conservadores e a luta pelo poder: Le Bon, Sorel, Action Française e Integralismo Lusitano.
História (São Paulo) [online], v. 36, n. 00, e2, 2017.
Lacerda faz referência ao texto FRESTON, Paul. Protestantes e Política no Brasil: da Constituinte ao Impeachment. Campinas:
Tese (Doutorado). Universidade Estadual de Campinas: São Paulo, 1993.
CHESNUT, R. Andrew. Born Again in Brazil: The Pentecostal Boom and the Pathogens of Poverty. New Brunswick: Rutgers
University Press, 1997.
Durante esse trabalho se utilizará o conceito de políticas públicas como definida por Souza (2006), visto que “políticas públicas
constitui-se no estágio em que os governos democráticos traduzem seus propósitos e plataformas eleitorais em programas e ações
que produzirão resultados ou mudanças no mundo real. [...] políticas públicas, após desenhadas e formuladas, desdobram-se em
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mais recorrentes nos discursos de líderes políticos e religiosos nas redes sociais; assim como analisar a
evolução temporal dessas temáticas durante o mandato presidencial. A relevância do estudo justifica-se pela
necessidade de compreender a relação entre grupos e grupos religiosos em um contexto democrático.
3. Métodos e metodologia de pesquisa
Esta pesquisa, realizada entre 2019 e 2022, adotou abordagem metodológica mista, combinando análise
quantitativa e qualitativa para compreender as dinâmicas discursivas entre atores políticos e religiosos. O
desenho metodológico baseia-se na análise de conteúdo proposta por Bardin (2011), adaptada para o
ambiente digital das redes sociais. E o corpus foi composto por tweets de doze indivíduos, categorizados em
três grupos distintos:
Líder religioso (1): Silas Malafaia, pastor evangélico com mais de 1,8 milhões de inscritos no YouTube
e 1,5 milhões de seguidores no Twitter, reconhecido por suas posições políticas conservadoras.
Líderes político-religiosos (4): Marco Feliciano (Deputado Federal), Damares Alves (Ministra da Mulher,
Família e Direitos Humanos), André Mendonça (Advogado-Geral da União e posteriormente Ministro da
Justiça), Milton Ribeiro (Ministro da Educação).
Líderes políticos (7): Jair Bolsonaro (Presidente), Eduardo Bolsonaro (Deputado Federal), Carlos
Bolsonaro (Vereador), Ricardo Vélez Rodrigues (Ministro da Educação), Abraham Weintraub (Ministro da
Educação), Cristiane Britto (Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos), Victor Godoy Veiga
(Ministro da Educação).
A seleção dos participantes baseou-se nos critérios de relevância política durante o período estudado,
possibilidade de influência nas redes sociais, representatividade de diferentes segmentos (religioso, político-
religioso, político) e atuação ativa no Twitter durante o período analisado
§
.
A coleta foi realizada utilizando o programa Twitonomy, que utiliza APIs do Twitter (atual X) para
extração de dados. O período total compreendeu janeiro de 2019 a dezembro de 2022, resultando em 72.750
tweets coletados
**
.
planos, programas, projetos, bases de dados ou sistema de informação e pesquisas. Quando postas em ação, são implementadas,
ficando daí submetidas a sistemas de acompanhamento e avaliação” (2006, p. 26).
§
É válido relembrar a família Bolsonaro contava com o presidente da República Jair Bolsonaro e sua primeira dama Michelle
Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, o vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro.
Também é importante ressaltar a atuação de Michelle Bolsonaro na aproximação entre a presidência e grupos evangélicos assim
como a atuação de Renan Bolsonaro, que em 2021 era investigado por tráfico de influência política, sendo, contudo, encontrado
inocente no ano de 2022 pela investigação da Polícia Federal; mesmo que essa tenha acusado interferência da ABIN nas
investigações. Contudo, para esse momento da pesquisa, se optou pela o utilização de Michelle, Flávio e Renan na pesquisa; o
motivo dessa escolha se deu por não serem Michelle e Renan parte institucional da política, o que de maneira nenhuma desmerece
sua participação, mas que nesse momento da pesquisa de relações entre institucionalidades não se faz necessário. Flávio foi
desconsiderado pois, para um projeto de lei ser aprovado, é necessário que passe primeiro pelo congresso, assim, esse setor já está
contemplado na figura de Eduardo Bolsonaro.
**
Foram deletados, no ano de 2019, 703 tweets da equipe ministerial de Jair Bolsonaro, sendo que Eduardo Bolsonaro, Jair
Bolsonaro, Damares Alves e Abraham Weintraub responsáveis por 436 deles (Metropoles.Com, 2023,
https://www.metropoles.com/brasil/li-o-que-voce-apagou-os-tweets-deletados-da-gestao-bolsonaro.Acesso em 15/07/2023).
Supondo a manutenção dessa média de 109 tweets deletados, por pessoa, por ano, e a estendendo até 2022 para os perfis
acompanhados (Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Marco Feliciano, Damares Alves e Silas Malafaia foram
acompanhados pelos 4 anos, enquanto os responsáveis pelo Ministério da Educação e a AGU foram acompanhados de acordo com
seus mandatos, e houve a adição de Cristiane Britto do momento em que Damares Alves teve que se afastar para concorrer às
eleições), seria possível atingir um total de 3.924 tweets, levando o número total de tweets para 76.674; supondo-se que nenhum
dos tweets apagados tenham sido capturados pela pesquisa é possível aferir uma margem de erro de 0,11% com um nível de
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Os tweets foram organizados em conjuntos de documentos por autor e ano, permitindo análises
longitudinais e comparativas
††
. Por exemplo, "Jair Bolsonaro 2022" constitui um conjunto de planilhas
contendo todos os tweets do presidente no ano de 2022. Já a análise foi conduzida utilizando o software
MAXQDA, especializado em análise de dados qualitativos, quantitativos e métodos mistos. O processo
incluiu a identificação dos termos mais utilizados por cada participante e período, aplicando lista de exclusão
para remover artigos, pronomes e outros termos não relevantes; o agrupamento de termos por tema (ex.:
"deus", "Deus", "divindade" agrupados como "Deus"), permitindo análise mais precisa da relevância
temática; identificação dos contextos mais frequentes de uso dos termos, como "Deus" utilizado no contexto
de "benção" ou "cuidado"; a utilização do coeficiente R de Pearson para identificar correlações entre termos,
revelando padrões de associação discursiva e, por fim, a
comparação da evolução temática ao longo dos quatro anos, identificando padrões sazonais e tendências.
4. Desenvolvimento e Resultados
O corpus total de 72.750 tweets distribuiu-se conforme apresentado na Tabela 1, com a família Bolsonaro
correspondendo a aproximadamente 56% do total de publicações: Eduardo Bolsonaro (25%), Carlos
Bolsonaro (18%) e Jair Bolsonaro (13%). Silas Malafaia e Marco Feliciano também apresentaram números
elevados, com 13% e 12%, respectivamente.
Compilado de Tweets por ano (2019 2022)
Nome
2019
2021
Total
%
Pres. Jair Bolsonaro
2216
1982
9217
13%
Dep. Eduardo Bolsonaro
3081
4512
18096
25%
Dep. Marco Feliciano
1509
2114
8683
12%
Min. Abraham Weintraub
2754
0
4682
6%
Min. André Mendonça
430
89
880
1%
Min. Cristiane Britto
0
0
168
0%
Min. Damares Alves
1478
1145
5254
7%
Min. Milton Ribeiro
0
1382
1843
3%
Min. Ricardo Velez
154
0
154
0%
Min. Victor Godoy
0
0
711
1%
Pr. Silas Malafaia
2068
2456
9614
13%
Ver. Carlos Bolsonaro
2609
2194
13448
18%
confiança de 99% aos dados apresentados sobre as temáticas que serão trabalhadas a seguir. É necessário afirmar que essa projeção
de tweets apagados é, muito provavelmente, maior do que o total, dado a proporcionalidade que cada perfil representa no total de
publicações.
††
A busca foi feita em qualquer palavra superior a 1 (um) caractere, com os critérios de diferenciação por documentos, por grupos
de documentos “nível superior” e conjuntos de documentos, além da busca lematizada assim como não lematizada, sendo cada um
especificado no decorrer do texto; em todos os casos se ignorou links, endereços de e-mail, números e a lista de exclusão com
preposições, artigos, emoticons, nomes dos próprios autores e outros termos não significativos
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TABELA 1: Compilado de Tweets por ano. Fonte propria
4.1. Análise Temática Longitudinal
A análise da frequência de termos ao longo dos quatro anos revelou consistência temática, com variações
significativas apenas em momentos específicos. Os dez termos mais frequentes mantiveram-se relativamente
estáveis, com algumas alterações pontuais relacionadas a eventos conjunturais.
5. Evolução dos 10 termos mais frequentes por ano
6. Posição
7. 2019
8. 2020
9. 2021
10. 2022
11.
12. Brasil
13. Brasil
14. Brasil
15. Brasil
16.
17. Governar
18. Presidente
19. Presidente
20. Presidente
21.
22. Presidente
23. Governar
24. Governar
25. Brasileiro
26.
27. País
28. Brasileiro
29. Povo
30. Povo
31.
32. Poder
33. Deus
34. Brasileiro
35. Governar
36.
37. Bom
38. Povo
39. Poder
40. Poder
41.
42. Deus
43. Poder
44. País
45. Deus
46.
47. Trabalhar
48. País
49. Vacinar
50. Bom
51.
52. Brasileiro
53. Bom
54. Bom
55. País
56. 10º
57. Família
58. Trabalhar
59. Deus
60. Democracia
TABELA 2: Evolução dos 10 termos mais frequentes por ano. Fonte Própria.
O ano de 2019, primeiro do mandato presidencial, caracterizou-se pelo estabelecimento da agenda
governamental. Entre os 10 termos mais utilizados, apenas dois relacionavam-se com temas tradicionalmente
evangélicos: "Deus" (7ª posição) e "Família" (10ª posição).
A análise contextual revelou que "Deus" aparecia principalmente como expressão "Deus abençoe" (64
vezes, 8,5% do total em 2019) e ligado à "Assembleia de Deus" (46 vezes, 6,1%). Com os maiores
utilizadores sendo Silas Malafaia, Marco Feliciano e Eduardo Bolsonaro. Já "Família" aparecia ligada à ideia
de "conforto" em 31 ocasiões (4,1%).
A baixa correlação entre "Deus" e "família" (R = 0,24) sugere pouca relação numérica entre esses termos
tradicionalmente associados a grupos religiosos conservadores, como demonstrado na Tabela 3.
Correlação R de Pearson: Deus e Família - 2019
Poder
País
Presidente
Governar
Brasil
Deus
Família
Poder
0,435
0,435
0,446
0,567
0,360
0,302
País
0,435
0,485
0,675
0,685
-
0,214
-0,055
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Presidente
0,435
0,485
0,523
0,566
0,082
-0,051
Governar
0,446
0,675
0,523
0,563
-
0,028
0,052
Brasil
0,567
0,685
0,566
0,563
-
0,035
0,040
Deus
0,360
-
0,214
0,082
-0,028
-0,035
0,242
TABELA 3: Correlação R de Pearson: Deus e Família. Fonte própria.
O ano de 2020 foi marcado pela pandemia de COVID-19 e eleições municipais. O termo "Deus" ascendeu
para a posição, acompanhado de maior atuação dos líderes religiosos Silas Malafaia e Marco Feliciano
(31% das publicações contra 22% em 2019).
Marco Feliciano e Silas Malafaia alinharam-se ao governo durante a pandemia, defendendo a manutenção
de atividades econômicas e criticando medidas de isolamento social. O termo "família" foi substituído por
"povo", indicando mudança na estratégia discursiva. Nesse contexto o termo “Deus” aparece como "Deus
abençoe", com 153 aparições (12,7%), "Graças a Deus" tendo 77 aparições (6,3%), e ligados ao termo
"Brasil", 67 aparições (5,5%) e "Povo", 59 aparições (4,9%). No caso da correlação entre “Brasil” e “Deus”,
são se vê uma alta significância (R = 0,6).
Correlação R de Pearson: Deus e outros termos de 2020
Brasileiro
Presidente
Governar
Brasil
Deus
Brasileiro
0,668
0,656
0,769
0,641
Presidente
0,668
0,621
0,759
0,401
Governar
0,656
0,621
0,779
0,546
Brasil
0,769
0,759
0,779
0,600
Deus
0,641
0,401
0,546
0,600
TABELA 4: Correlação R de Pearson: Deus e demais termos de 2020. Fonte Própria.
Em 2021, o termo "Deus" declinou para a 10ª posição, demonstrando influência decrescente de grupos
religiosos conservadores. A análise revelou que 54,72% das menções provinham de Malafaia (203) e
Feliciano (110), confirmando o padrão de líderes religiosos como interlocutores do governo.
A correlação entre "Brasil" e "Presidente" fortaleceu-se significativamente, passando de 0,759 em 2020
para 0,815 em 2021, evidenciando tentativa crescente de associar Bolsonaro ao país, como apresentado na
Tabela 5.
Correlação R de Pearson: Deus e outros termos de 2021
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Brasil
Presidente
Governar
Povo
Deus
Brasil
0,815
0,786
0,336
0,270
Presidente
0,815
0,830
0,382
0,347
Governar
0,786
0,830
0,270
0,211
Povo
0,336
0,382
0,270
0,699
Deus
0,270
0,347
0,211
0,699
TABELA 5: Correlação R de Pearson: Deus e demais termos de 2021. Fonte Própria.
no ano eleitoral de 2022, "Deus" retornou à posição. Observou-se mudança significativa no uso do
termo, com Eduardo e Carlos Bolsonaro correspondendo por 37,9% das menções, demonstrando utilização
instrumental da religião em estratégia eleitoral. Contudo, o termo não apresenta correlação alta com nenhum
outro termo significante, como apresentado na Tabela 6. E o termo "democracia" entrou no ranking de termos
mais usados, substituindo "vacinar", refletindo o debate eleitoral centrado na defesa democrática.
Correlação R de Pearson: Deus e outros termos de 2022
Deus
Presidente
Povo
Brasileiro
Brasil
Deus
0,511
0,643
0,460
0,477
Presidente
0,511
0,328
0,391
0,766
Povo
0,643
0,328
0,652
0,391
Brasileiro
0,460
0,391
0,652
0,604
Brasil
0,477
0,766
0,391
0,604
TABELA 6: Correlação R de Pearson: Deus e demais termos de 2022. Fonte Própria.
A análise de correlações utilizando o coeficiente R de Pearson revelou padrões consistentes ao longo dos
quatro anos. O crescimento constante da correlação Brasil-Presidente indica estratégia deliberada de
associação entre Bolsonaro e símbolos nacionais. A elevação da correlação Deus-Presidente em 2022
confirma o uso eleitoral da religião.
61. Evolução das principais correlações
62. Correlação
63. 2019
64. 2020
65. 2021
66. 2022
67. Brasil-Presidente
68. 0,566
69. 0,759
70. 0,815
71. 0,766
72. Deus-Presidente
73. 0,082
74. 0,401
75. 0,347
76. 0,511
77. Deus-Família
78. 0,242
79. -
80. -
81. -
82. Brasil-Governar
83. 0,563
84. 0,779
85. 0,786
86. -
TABELA 7: Evolução das principais correlações. Fonte Própria.
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Por outro lado, a análise de termos relacionados a direitos sexuais e reprodutivos ("LGBT", "Gay",
"Gênero", "Feminismo", "Homossexual") revelou tendência decrescente consistente, tendo consistentemente
Eduardo Bolsonaro como maior utilizador, seguido por Silas Malafaia e Marco Feliciano, esse normalmente
utilizado em contextos que buscava se defender contra a “esquerda”.
87. Evolução da frequência de termos LGBT
88. Ano
89. Total de Menções
90. Variação Anual
91. 2019
92. 157
93. -
94. 2020
95. 133
96. -15,3%
97. 2021
98. 125
99. -6,0%
100. 2022
101. 65
102. -48,0%
TABELA 8: Evolução da frequência de termos LGBT. Fonte Própria.
Os contextos de utilização foram predominantemente negativos, associando esses termos à "ideologia de
gênero" e posicionando-os como ameaças aos valores tradicionais.
4.2. Padrões de Atuação dos Líderes Religiosos
A análise identificou três padrões principais na atuação de líderes religiosos: Defesa Governamental,
Antagonismo Institucional e Mobilização Eleitoral. Líderes religiosos atuaram predominantemente
defendendo o governo, não pressionando por pautas específicas. Silas Malafaia e Marco Feliciano
funcionaram como porta-vozes governamentais, reproduzindo narrativas oficiais. Também, ataques
coordenados ao STF, imprensa e governadores de oposição caracterizaram o discurso religioso-político. O
STF foi particularmente visado, sendo apresentado como ameaça à liberdade religiosa. Além da
intensificação de atividades em anos eleitorais (2020 e 2022), com convocação de jejuns, manifestações e
eventos religiosos com conteúdo político explícito.
Nesse sentido, a pesquisa identificou clara sazonalidade nas temáticas religiosas. Em anos não eleitorais,
como 2019 e 2021 percebeu-se a menor utilização de termos religiosos, com foco em questões administrativas
e econômicas, além da religião como elemento de apoio, não mobilização. Já em anos eleitorais, como 2020
e 2022, houve aumento significativo de referências religiosas, utilização do lema "Deus, Pátria, Família e
Liberdade" e a instrumentalização de símbolos cristãos.
5. Discussão dos Resultados
Os resultados confirmam a hipótese central de que a relação entre evangélicos neoconservadores e o
governo Bolsonaro baseou-se mais em identidade política que em princípios religiosos específicos. A baixa
correlação entre termos religiosos e a queda na utilização de pautas morais tradicionais indicam que o apoio
vocal não se traduziu em pressão efetiva por políticas específicas. Esta descoberta alinha-se com a literatura
sobre neoconservadorismo (ALMEIDA, 2018), que identifica a religião como um elemento dentro de uma
constelação ideológica mais ampla, incluindo liberalismo econômico, autoritarismo político e nacionalismo
cultural.
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Ainda, a elevação dos termos religiosos em anos eleitorais (2020 e 2022) sugere instrumentalização
estratégica da religião para fins eleitorais. O aumento da correlação Deus-Presidente de 0,347 em 2021 para
0,511 em 2022 demonstra uso calculado de símbolos religiosos. Esta instrumentalização não é fenômeno
exclusivamente brasileiro, encontrando paralelos nos populismos de direita globais analisados por Löwy
(2019) e nas estratégias de líderes como Viktor Orbán na Hungria e Donald Trump nos Estados Unidos.
Contrariamente à percepção comum sobre influência evangélica, os dados demonstram busca limitada de
pressão para influenciar na formulação de políticas públicas. Alguns fatores podem explicar essa limitação:
heterogeneidade do grupo evangélico, divisões internas à identidade coletiva neoconservadora e sistema de
freios e contrapesos da democracia brasileira (SOARES, 2025).
Primeiramente, a comunidade evangélica brasileira não constitui bloco monolítico. Divisões internas sobre
economia, segurança e mesmo questões morais limitaram a capacidade de pressão unificada. Além disso,
grupos militares, econômicos e técnicos dentro do governo competem com a influência religiosa.
Os resultados contribuem para o debate sobre secularização no Brasil, demonstrando que, mesmo em
governo com forte apoio evangélico, a laicidade do Estado, ao menos no campo discursivo, manteve-se
preservada vista a baixa pressão evangélica contra o governo, de modo que a identidade política teve
prevalência. Esta descoberta apoia a tese de Mariano (2011) sobre a "laicidade à brasileira", caracterizada
por separação formal com influência simbólica persistente, mas dentro de limites institucionais democráticos.
Portanto, a pesquisa identificou papel da religião na polarização política brasileira, servindo mais como
marcador identitário que como fonte de pressão por políticas específicas. Esta polarização, embora pareça
intensa no plano discursivo, não se mostrou na realidade. O padrão observado sugere que a religião, no
contexto brasileiro contemporâneo, opera mais como recurso de mobilização política que como fonte de
autoridade política autônoma; além de como defensora de identidades políticas previamente dadas.
6. Conclusões
Esta pesquisa analisou 72.750 tweets de políticos e líderes religiosos durante o governo Bolsonaro,
revelando padrões específicos na relação entre religião e política no Brasil contemporâneo.
Temas religiosos ganharam proeminência principalmente em anos eleitorais, confirmando uso
instrumental. A correlação Deus-Presidente aumentou significativamente em 2022 (0,511), contrastando com
valores menores em anos não eleitorais. Observou-se também a redução consistente na discussão de direitos
sexuais e reprodutivos, com queda entre 2021 e 2022, demonstrando que temas morais tradicionais não foram
centrais mesmo em governo conservador.
Líderes como Silas Malafaia e Marco Feliciano atuaram mais defendendo o governo que pressionando por
pautas específicas, funcionando como porta-vozes políticos em linguagem religiosa. O crescimento constante
da associação discursiva entre Bolsonaro e símbolos nacionais superou largamente correlações religiosas.
Os resultados questionam interpretações simplistas sobre dessecularização, demonstrando que influência
religiosa contemporânea opera dentro de marcos seculares, competindo com outras fontes de autoridade e
identidade, como a política. A pesquisa confirma, ao menos em termos comunicacionais, que o
neoconservadorismo brasileiro articula religião com outros elementos ideológicos, sendo a identidade
política, não religiosa, o fator determinante.
Contudo, mais estudos se fazem necessários para verificar se ss instituições democráticas brasileiras
demonstraram capacidade de resistir a pressões religiosas extremas, mantendo laicidade formal mesmo sob
governo com forte retórica religiosa. O caso brasileiro ilustra limitações estruturais do populismo religioso
em democracias constitucionais, onde sistema de freios e contrapesos restringe transformações radicais. De
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modo que redes sociais emergiram como espaço central de articulação entre religião e política, mas sua
influência limitou-se ao plano simbólico e, mesmo nesse, à defesa de uma identidade política.
Esta pesquisa demonstrou, portanto, que apesar do apoio vocal de líderes evangélicos e da utilização de
símbolos religiosos em campanhas eleitorais, a busca de pressão efetiva foi limitada. A relação baseou-se
mais em identidade política neoconservadora que em princípios religiosos específicos.
Os achados questionam narrativas sobre "teocracia" ou "estado confessional" no Brasil, indicando que a
influência religiosa, embora presente, opera dentro dos limites institucionais democráticos. A laicidade do
Estado brasileiro manteve-se preservada em termos comunicacionais, com influência religiosa manifestando-
se principalmente no plano simbólico, mas de forma pouco expressiva. Estes resultados contribuem para
compreensão mais nuançada das relações entre religião e política no Brasil contemporâneo, evidenciando
complexidades que transcendem dicotomias simplistas entre secular e religioso.
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