https://journals.scientia.international/SIJSocial
Scientia International Journal for
Social Sciences
Vol. 1, 1 (2026)
Tipo: [Artigo de Pesquisa] | DOI: 10.56365/0z09nc07
XXXX-XXXX © 2026 Os autores. Publicado por Scientia.International S.L. (Espanha).
Artigo de acesso aberto sob licença CC BY 4.0 (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0).
O Movimento de Mulheres Negras como sujeito político e epistêmico:
autonomia e produção de saberes
Monica Regina Miranda 1*, Angie Edell Campos Lazo 2
1 Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Campinas, Brasil
2 Universidade Nacional Mayor de San Marcos (UNMSM), Lima, Peru; https://orcid.org/0000-0002-1732-4015
* Autor correspondente: m235987@dac.unicamp.br.
Resumo
Esta pesquisa analisa o Movimento de Mulheres Negras (MMN) na década de 1980 como sujeito político e epistêmico, destacando
a autonomia como práxis coletiva e situada. A partir de uma abordagem interseccional e decolonial, investigamos o percurso
histórico no contexto do Rio de Janeiro, entre os anos de 1980 e 1997 do MMN, suas estratégias de resistência e sua capacidade
de produzir saberes enraizados nas experiências vividas. O texto articula três eixos centrais ação política, produção de
conhecimento e construção de autonomia para compreender como o MMN tensiona estruturas hegemônicas e afirma
epistemologias do Sul. Ao reconhecer o protagonismo das mulheres negras na elaboração de sentidos éticos e políticos, o artigo
contribui para os debates sobre justiça epistêmica, direitos e transformação social.
Palavras-chave: Mulheres Negras; Autonomia; Interseccionalidade; Feminismo Negro; Epistemologias do Sul; Movimento
Social.
Detalhes do artigo | Avaliação por pares aberta
Editado por:
Bruno César Alves Marcelino
Avaliado por:
Walkyria Chagas da Silva Santos Guimarães
Yasmim Pereira Yonekura
Citação:
Miranda, M. R., & Edell Campos Lazo, A. (2026). O Movimento de Mulheres
Negras como sujeito político e epistêmico:autonomia e produção de saberes.
Scientia International Journal for Social Sciences, 1 (1), 30.
https://doi.org/10.56365/0z09nc07
Histórico do artigo
Recebido: 16/12/2025
Revisado: 16/02/2026
Aceito: 24/03/2026
Disponível: 28/05/2026
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Introdução
Neste artigo, propomos um debate teórico com intelectuais negros e negras brasileiros/as, mobilizando
uma bibliografia nacional comprometida com epistemologias negras. Ao dialogar com essas produções,
buscamos contribuir para a construção de perspectivas críticas e inovadoras nas ciências sociais,
reconhecendo o pensamento negro brasileiro como central na produção de conhecimento socialmente situado.
Este debate se insere no contexto da ditadura militar brasileira (19641985) e do processo de
redemocratização, período em que os movimentos sociais encontraram nas brechas políticas a possibilidade
de reorganização e resistência coletiva.
A década de 1980 foi marcada por uma efervescência política e social no Brasil, especialmente no contexto
da redemocratização e da mobilização dos movimentos sociais. Nesse cenário, o Movimento de Mulheres
Negras (MMN) emergiu como uma força coletiva que buscava articular as especificidades das opressões
vividas por mulheres negras, historicamente invisibilizadas tanto pelo movimento dos homens negros quanto
pelo movimento feminista branco.
O MMN constitui um sujeito político e epistêmico que, ao longo das últimas décadas, tem articulado
práticas de resistência, produção de saberes e construção de autonomia frente às múltiplas formas de
opressão. Entende-se por sujeito político aquele que, a partir de uma posição historicamente subalternizada,
formula demandas coletivas, disputa espaços de poder e constrói uma agenda própria de transformação social.
Por sujeito epistêmico, compreende-se aquele capaz de produzir conhecimento a partir de sua experiência
situada, desafiando os critérios hegemônicos que definem o que conta como saber legítimo. O MMN reúne
essas duas dimensões de forma indissociável: ao organizar-se politicamente, produz também conhecimento;
ao produzir conhecimento, fortalece sua ação política. Este artigo propõe uma análise crítica do percurso
histórico do MMN, destacando como a autonomia não se apresenta apenas como um ponto de partida, mas
como uma práxis situada, coletiva e transformadora.
Nos anos 1980, os saberes das mulheres negras afirmaram que raça, gênero e classe são inseparáveis na
experiência social. Esses saberes valorizaram o cotidiano, a ancestralidade, a cultura e a militância como
formas legítimas de conhecimento.
Eles denunciaram o racismo no feminismo e o sexismo no movimento negro, criando um feminismo negro
autônomo e crítico.
A partir de uma abordagem interseccional e decolonial. Exemplo interseccional e decolonial: O MMN
analisa as opressões de raça, gênero e classe como efeitos históricos da colonialidade.
Ao fazê-lo, produz epistemologias próprias e contesta a centralidade do feminismo universalista. O texto
examina como o MMN tensiona os limites das estruturas hegemônicas de poder e conhecimento, produzindo
sentidos próprios de ação política e saberes enraizados nas experiências vividas. Ao reconhecer o MMN como
espaço de elaboração ética e epistêmica, busca-se compreender sua contribuição para a justiça social e para
a construção de epistemologias do Sul.
Para essa análise, serão mobilizados referenciais teóricos que permitem compreender os processos de
articulação, resistência e construção coletiva protagonizados por mulheres negras naquele período. Entre os
principais aportes teóricos, destaca-se o pensamento de Lélia Gonzalez (1988), que argumenta que a
experiência dessas mulheres não pode ser compreendida apenas pela ótica do gênero, que estão submetidas
simultaneamente à dominação patriarcal e à violência racial, o que resulta em múltiplas formas de exclusão
da violência física à marginalização política e social.
O pensamento de Lélia Gonzalez é fundamental para compreender as bases do feminismo negro no Brasil.
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Suas reflexões evidenciam que a luta das mulheres negras não pode ser completamente representada por um
feminismo hegemônico, centrado nas experiências de mulheres brancas de classe média. Para Gonzalez, o
feminismo precisa ser plural, interseccional e atento às especificidades de raça e classe. As mulheres negras
não podem ocupar uma posição subordinada ou ser vistas como uma subcategoria dentro do feminismo
branco, que, ao longo da história, ignorou sistematicamente as desigualdades raciais em sua agenda política.
A proposta de Gonzalez vai além da crítica: ela aponta para a construção de um feminismo que reflita a
realidade das mulheres negras, suas vivências e formas de resistência. Esse olhar interseccional é essencial
para compreender a importância da atuação política dessas mulheres e sua centralidade em movimentos que
articulam gênero, raça e classe como elementos inseparáveis da opressão e da luta por justiça social.
Sueli Carneiro (2005), por sua vez, complementa essa crítica, apontando que o movimento feminista, em
sua maioria, exclui ou marginaliza a voz das mulheres negras. Carneiro destaca que o racismo estrutural é
uma das principais barreiras à plena participação das mulheres negras nas discussões feministas e que as
questões raciais precisam ser centrais em qualquer proposta de emancipação feminina. Para ela, é impossível
falar em liberdade ou igualdade para as mulheres negras sem uma análise crítica do racismo que afeta suas
vidas de maneira direta e profunda. Assim, a autora reforça a necessidade de um feminismo negro, que
entenda a interseção entre gênero, raça e classe como uma condição fundamental para a luta pela equidade.
Tanto Gonzalez quanto Carneiro nos mostram que um feminismo verdadeiro, capaz de atender as
demandas das mulheres negras, deve ser transformador e inclusivo, rompendo com as narrativas dominantes
que negam a experiência do racismo. Ambas as autoras argumentam que a construção de um feminismo
negro exige a valorização das vivências das mulheres negras e o reconhecimento de que suas lutas não são
secundárias, mas centrais para a construção de uma sociedade justa e igualitária.
Com base nas ideias das intelectuais negras, emergiu a pergunta que fundamentou esta investigação
teórica: como o feminismo interseccional nas múltiplas dimensões de gênero, raça e classe influencia a luta
das mulheres negras contra as dominações e opressões das quais historicamente são vítimas? Parte-se da
hipótese de que o MMN, ao articular raça, gênero e classe como dimensões inseparáveis da opressão, o
apenas resistiu às estruturas hegemônicas de poder, mas constituiu-se como sujeito epistêmico autônomo,
capaz de produzir saberes situados e práticas políticas que desafiam tanto o feminismo universalista quanto
o movimento negro androcêntrico. Nesse sentido, a autonomia não se apresenta como resultado final da luta,
mas como práxis coletiva e transformadora que atravessa todo o percurso histórico do MMN sendo, ao
mesmo tempo, condição e produto da resistência política e da produção de conhecimento das mulheres
negras.
Para responder a essa questão, é fundamental compreender como as intersecções entre sexismo, racismo e
classismo formam um sistema de dominação único que afeta as mulheres negras de maneira específica. O
feminismo negro, portanto, propõe uma análise crítica dessas opressões combinadas, destacando a
necessidade de políticas que considerem essas múltiplas dimensões. Ao discutir essa abordagem
interseccional, busca-se elucidar como ela pode informar e transformar as práticas políticas atuais, tornando-
as mais inclusivas e eficazes na luta contra as desigualdades estruturais que afetam as mulheres negras.
O MMN dos anos de 1980 segue por esse caminho, ao representar uma ruptura necessária com o feminismo
tradicional, reivindicando um espaço onde a questão racial seja central e não secundária. Mais do que lutar
apenas por igualdade de gênero, as mulheres negras propunham uma transformação estrutural que pudesse
enfrentar as desigualdades raciais, sociais, econômicas e políticas que as afetavam diretamente.
Esse movimento ganha ainda mais força no contexto da redemocratização do Brasil, especialmente no Rio
de Janeiro, onde, durante os anos 1980, os espaços de mobilização política estavam em efervescência. Nesse
cenário, torna-se essencial compreender não as demandas históricas das mulheres negras, mas também
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suas vivências subjetivas e as formas de articulação política que construíram naquele período. A luta das
mulheres negras não se restringia à crítica ao feminismo branco, mas abrangia múltiplas demandas sociais,
territoriais e culturais, tais como o combate à violência doméstica e institucional, o acesso à saúde
reprodutiva, a valorização da cultura e da ancestralidade negra, e a representação política nos espaços de
poder.
Nesse cenário, o I Encontro Nacional de Mulheres Negras, realizado em Valença (RJ) em 1988, constitui
um marco central desta análise, por expressar de forma concreta a autonomia política e epistêmica construída
pelo MMN ao longo da década. Neste artigo, utilizamos as estratégias do I Encontro Nacional de Mulheres
Negras de Valença para traçar o passo a passo de sua formação, destacando como o evento foi idealizado e
executado, os critérios de participação e as razões pelas quais ele se fez necessário. A metodologia consistiu
na análise de editoriais da época e na realização de entrevistas semiestruturadas, associadas à escuta ativa das
trajetórias das interlocutoras, possibilitando a compreensão do contexto histórico e das experiências por elas
construídas. Os boletins também apresentam as justificativas para essa decisão e para a importância do
encontro como um espaço dedicado, pensado e organizado pelas próprias mulheres negras. Para
complementar, fazemos uso da revista Nzinga, da época, que acompanharam e documentaram os
desdobramentos do encontro.
Um ponto central desse encontro foi a decisão de não permitir a participação de homens nem de feministas
brancas, refletindo a intenção de dar voz exclusivamente às mulheres negras e colocar suas questões no centro
dos debates e reflexões.
O artigo está organizado em três seções. A primeira examina o surgimento do Movimento Negro Unificado
(MNU) e sua relevância para a luta das mulheres negras. A segunda analisa a atuação das mulheres no interior
do MNU, destacando o enfrentamento ao machismo e a construção de alianças políticas. A terceira seção
discute a autonomia como práxis coletiva no MMN, articulando a experiência do I Encontro Nacional de
Mulheres Negras de Valença (1988) com a produção de saberes situados e epistemologias do Sul. Por fim, a
conclusão retoma os eixos centrais do debate e aponta as contribuições do MMN para a justiça epistêmica e
social.
Percurso Metodológico e Epistemológico
Do ponto de vista metodológico, este artigo se insere em uma perspectiva qualitativa e interpretativa,
comprometida com a produção de conhecimento situado e socialmente engajado. As fontes primárias
mobilizadas editoriais, boletins e a revista Nzinga foram selecionadas por serem documentos
produzidos pelo próprio MMN, o que significa reconhecer as mulheres negras não como objetos de análise,
mas como sujeitas produtoras de saber. As entrevistas semiestruturadas, por sua vez, foram conduzidas com
militantes que participaram diretamente do I Encontro Nacional de Mulheres Negras de Valença (1988),
privilegiando a escuta ativa como instrumento de produção de conhecimento comprometido com as
experiências das interlocutoras.
A análise das fontes foi conduzida a partir da hermenêutica crítica e da análise do discurso situada,
procedimentos metodológicos coerentes com a perspectiva epistemológica decolonial adotada. Esses
procedimentos permitem interpretar os documentos não apenas como registros históricos, mas como
enunciações políticas e epistêmicas que revelam as formas de produção de sentido do MMN.
A abordagem interseccional, tal como desenvolvida por Kimberlé Crenshaw (1989) e aprofundada no
contexto brasileiro por Sueli Carneiro e Lélia Gonzalez, orienta a leitura das fontes ao revelar como raça,
gênero e classe não operam de forma isolada, mas se articulam produzindo formas específicas e combinadas
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de opressão. Essa lente analítica permite compreender por que as demandas das mulheres negras não podiam
ser subsumidas nem pelo feminismo branco nem pelo movimento negro androcêntrico.
A perspectiva decolonial fundamenta a crítica aos regimes de conhecimento hegemônicos e justifica a
centralidade das epistemologias do Sul neste trabalho. Seguindo Boaventura de Sousa Santos (2010) e a
proposta de Ochy Curiel (2014) de uma autonomia insurgente, compreende-se que os saberes produzidos
pelo MMN constituem formas legítimas e originais de conhecimento, enraizadas nas experiências corporais,
territoriais e afetivas de mulheres negras. O conceito de saberes situados desenvolvido por Donna Haraway
(1995) e reconfigurado pelo pensamento negro feminista permite reconhecer que todo conhecimento é
produzido desde um lugar social específico, e que esse lugar importa política e epistemicamente.
Em termos procedimentais, a análise documental das fontes primárias editoriais, boletins e a revista
Nzinga foi orientada por três eixos interpretativos: (i) a identificação das estratégias discursivas utilizadas
pelo MMN para afirmar sua autonomia política e epistêmica; (ii) o rastreamento das formas de produção e
circulação de saberes coletivos; e (iii) a localização das tensões e disputas com outros movimentos sociais
contemporâneos. Esses eixos foram construídos a partir do diálogo entre o referencial teórico interseccional
e decolonial e o material empírico, permitindo que as categorias analíticas emergissem do próprio objeto, e
não fossem impostas a ele externamente. As entrevistas semiestruturadas, realizadas com duas militantes que
participaram diretamente do I Encontro Nacional de Valença, foram tratadas como fontes complementares e
trianguladas com os documentos escritos, de modo a contrastar memórias individuais com registros coletivos
e verificar a consistência interpretativa dos achados. Esse procedimento de triangulação entre fontes
documentais e orais é o que permite sustentar as interpretações apresentadas neste artigo como análise
fundamentada, e não como posicionamento arbitrário. A seguir, examinamos como a autonomia se constrói
historicamente no MMN, articulando práticas de resistência, produção de saberes e ação política.
1. O estopim da criação do Movimento Negro Unificado (MNU) e a relevância do grupo
para a luta das mulheres negras
A criação do Movimento Negro Unificado (MNU) insere-se em um contexto histórico marcado por
iniciativas de contestação ao poder sociopolítico hegemônico e por denúncias sistemáticas acerca da violência
institucional praticada pelo Estado brasileiro contra a população negra. Nesse cenário, um episódio específico
atuou como catalisador da fundação do movimento: o assassinato de Robson Silveira da Luz, taxista negro,
ocorrido em abril de 1978.
A partir dessa articulação, ativistas de diferentes regiões do país, com destaque para São Paulo e Rio de
Janeiro, passaram a desenvolver ações coletivas de enfrentamento ao racismo estrutural.
A importância do MNU no contexto da luta antirracista reside, em grande parte, no fato de ter sido uma
das primeiras organizações do movimento negro a reconhecer, de forma explícita e formal, que as mulheres
negras enfrentam desafios específicos e agravados pela intersecção entre racismo e machismo. Essa
compreensão indicava que as opressões vividas por mulheres negras não podiam ser tratadas de maneira
isolada ou secundária, uma vez que sua condição de dupla vulnerabilidade, por serem negras e mulheres,
exigia um enfrentamento político próprio.
Dessa forma, o surgimento do movimento de mulheres negras está intrinsecamente ligado ao conceito de
interseccionalidade a articulação entre as opressões de gênero, raça e classe, dentro de uma estrutura social
marcada por desigualdades profundas e sistêmicas. A partir das décadas de 1970 e 1980, as mulheres negras
passaram a se organizar de forma mais visível e autônoma, criando seus próprios espaços políticos e
formulando uma agenda específica que expressasse suas demandas e experiências.
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2. A atuação das mulheres no MNU: consciência crítica e enfrentamento do machismo
A construção da autonomia no MMN está intrinsecamente ligada à produção de saberes situados, que
emergem das experiências vividas e das práticas coletivas de resistência. No âmbito do MNU, a atuação das
mulheres negras foi decisiva para o aprofundamento de uma reflexão crítica e educativa sobre as múltiplas
opressões a que estavam submetidas. As militantes assumiram um papel central na organização de grupos de
discussão regionais, espaços nos quais compartilhavam vivências e analisavam coletivamente os efeitos
interseccionais do racismo e do machismo em suas trajetórias pessoais, profissionais e políticas
(GONZALEZ, 1988; CARNEIRO, 2003).
Mais do que identificar o machismo nas relações interpessoais, esses debates buscaram evidenciar sua
natureza estrutural, compreendida como um instrumento de controle, exploração e sustentação da supremacia
masculina. Lélia Gonzalez (1988) apontava a necessidade de compreender como o sexismo opera de forma
articulada ao racismo na produção de desigualdades que atingem de modo específico as mulheres negras.
Nesse sentido, as iniciativas promovidas por essas militantes visavam não apenas fortalecer seu protagonismo
dentro do movimento, mas também conscientizar os homens militantes sobre a importância de incorporar a
igualdade de gênero como princípio político e ético fundamental na luta antirracista (CARNEIRO, 2003).
A criação desses espaços e a sistematização dos debates evidenciaram a urgência de reconfigurar as
dinâmicas internas do MNU, a fim de promover relações pautadas na equidade e no respeito mútuo. O
objetivo era consolidar um ambiente organizacional livre de discriminações de gênero, assegurando às
mulheres negras o devido reconhecimento de sua agência política, de sua capacidade de liderança e de sua
contribuição teórica e prática ao movimento.
Do ponto de vista externo, as relações estabelecidas entre o Movimento Negro Unificado (MNU),
entidades feministas e movimentos de mulheres possibilitaram a construção de alianças políticas estratégicas,
especialmente no enfrentamento das múltiplas formas de controle e violência dirigidas aos corpos femininos.
Entre as principais pautas dessas articulações estavam a denúncia da violência de gênero e a crítica às políticas
de planejamento familiar, frequentemente implementadas sem o consentimento das mulheres em especial das
negras e das pobres. Tais práticas eram compreendidas como mecanismos de dominação que reforçavam a
marginalização feminina e aprofundavam desigualdades históricas (CARNEIRO, 2003).
As alianças com outros movimentos feministas tinham como objetivo ampliar o alcance político das
demandas das mulheres negras, inserindo-as em uma agenda mais ampla e interseccional. Essa articulação
permitiu a politização de temas fundamentais, como o controle reprodutivo, a violência institucional e a
autonomia sobre o próprio corpo, a partir da compreensão de que o racismo e o sexismo operam de forma
interligada na vida das mulheres negras (GONZALEZ, 1988).
Nesse contexto, a atuação das mulheres negras se desdobrava em duas frentes complementares:
internamente, no enfrentamento ao machismo presente nas estruturas do próprio MNU; e externamente, na
construção de alianças com movimentos feministas para denunciar práticas estruturais de exclusão e
violência. Tratava-se, portanto, de uma luta simultânea por reconhecimento e por transformação social.
Em contraponto à crítica de Lemos (2009) ao movimento negro, é preciso também considerar as limitações
do feminismo branco, que, ao universalizar a experiência feminina a partir da vivência de mulheres brancas,
de classe média, historicamente ignorou as especificidades das mulheres negras. Autoras como lia
Gonzalez e Sueli Carneiro denunciam esse apagamento, apontando que o feminismo branco, ao desconsiderar
as intersecções entre raça, classe e gênero, reproduz uma lógica excludente semelhante àquela criticada por
Lemos no interior do movimento dos homens negros. Assim, tanto o movimento dos homens negros quanto
o feminismo branco, quando não interseccionais, naturaliza em reconhecer a complexidade das opressões
vivenciadas pelas mulheres negras.
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Ao afirmar saberes próprios e coletivos, o MMN contribui para a construção de justiça epistêmica,
ampliando os horizontes da ação política e da transformação social aspectos que serão retomados na
conclusão.
3. Autonomia e produção de saberes: práxis coletivas do MMN
A criação do Movimento Negro Unificado (MNU) insere-se em um contexto histórico marcado por
iniciativas de contestação ao poder
A autonomia e a produção de saberes constituem, no MMN, duas dimensões de uma mesma práxis política.
A autonomia não se reduz à independência organizativa frente a outros movimentos ela se manifesta,
sobretudo, na capacidade de nomear a própria experiência, de definir as categorias com as quais se interpreta
o mundo e de formular respostas coletivas às opressões vividas. Nesse sentido, autonomia é também um ato
epistêmico: ao recusar as definições impostas pelo feminismo branco e pelo movimento negro androcêntrico,
as mulheres negras afirmaram o direito de produzir seus próprios saberes. Por sua vez, essa produção de
saberes alimenta e fortalece a autonomia,
O Encontro representou um marco distintivo em relação a eventos anteriores, tornando-se uma referência
na organização coletiva e no protagonismo político das mulheres negras. A principal diferença esteve na
implementação de metodologias e práticas políticas específicas compreendidas aqui como “tecnologias
sociais” que responderam, de forma estratégica e inovadora, às demandas daquele período histórico. Esse
processo resultou não apenas em articulações organizativas robustas, mas também em um legado de políticas
públicas e no fortalecimento da agenda das mulheres negras no cenário nacional.
Na década de 1980, as mulheres negras compreenderam a necessidade de construir uma identidade coletiva
fundamentada em práticas que lhes possibilitassem disputar espaços de poder e reivindicar sua própria
história de lutas. A formação de coletivos não se deu de maneira isolada ou individual, mas emergiu de
experiências organizativas compartilhadas, enraizadas em vivências comuns e marcadas por laços de
ancestralidade. Esse aspecto conferia um diferencial político e simbólico, funcionando como um marcador
de diferença e pertencimento, Essas mulheres compreendiam que suas pautas não poderiam ser fragmentadas,
pois as opressões vividas estavam atravessadas simultaneamente por raça e gênero.
Elas buscavam o reconhecimento, mas, acima de tudo, pleiteavam a equidade na luta. Havia uma
necessidade profunda de autonomia, de desenvolver ações sociais e políticas que garantissem sua
representação e a consolidação do grupo. Para compreender as estratégias, articulações e exigências feitas
por essas mulheres, é necessário considerar um governo mais participativo e uma sociedade igualitária. Esse
contexto proporcionaria reflexões essenciais sobre a estruturação do processo de luta no ativismo, permitindo
que as demandas dessas mulheres fossem verdadeiramente atendidas e reconhecidas.
Não é possível narrar o I Encontro Nacional de Valença sem realizar uma retrospectiva de 1988, um ano
marcante, repleto de acontecimentos históricos que alimentaram diversos debates. Desde a cultura negra até
as reflexões políticas em torno do centenário da Abolição da Escravatura, 1988 foi um ano emblemático: em
16 de fevereiro de 1988, as escolas de samba do Rio de Janeiro, Vila Isabel e Mangueira, escolheram temas
que refletiam essas discussões. A Vila Isabel trouxe o enredo "Kizomba: a Festa da Raça", um resgate da
história do povo negro, enquanto a Mangueira apresentou o enredo "100 anos de Liberdade: Realidade ou
Ilusão?", que criticava o tipo de liberdade conquistada com a Abolição. Em 13 de maio de 1988, o movimento
negro organizou a Marcha dos 100 Anos da Farsa da Abolição”, que ficou marcada pela repressão do
Exército Brasileiro, que tratou os manifestantes como desordeiros ao impedir a marcha de passar pelo Palácio
Duque de Caxias. Em outubro de 1988, a promulgação da nova Constituição contou com a participação
significativa de ativistas negros e negras. Finalmente, em 2 de dezembro de 1988, o I Encontro Nacional de
Valença refletiu sobre a Abolição e seus desdobramentos.
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O editorial do I Encontro Nacional de Mulheres Negras de 1988, delineia toda a trajetória de preparação
do evento, sua estruturação e a importância desse encontro. O texto também esclarece as razões que tornaram
necessário esse encontro e a formação do MMN, destacando seu papel histórico no desenvolvimento do
pensamento político e social das mulheres negras no Brasil:
O I Encontro Nacional de Mulheres Negras será um marco na nossa história, menos pelo seu caráter político que ser por
sua função ideológica. Esse encontro tem por finalidade precípua, congregar mulheres negras de todo território nacional
e levar nos refletir sobre a verdadeira razão que nos torna diferentes, ou razão pelo qual nos é dado tratamento diferenciado
dos demais indivíduos que compõe a sociedade. (Nzinga, 1988: 2)
nesse primeiro parágrafo, as mulheres negras afirmam que o I Encontro é um marco histórico, não
por sua seriedade política, mas em especial por seu papel na questão de valores. O que aquelas mulheres
defendiam era que o encontro não seria somente sobre questões práticas ou políticas, que naquele momento
estavam em processo de maturação. Elas queriam mais do que reivindicações, transformações legais ou
direitos: as mulheres negras estavam pleiteando algo mais, que estaria no campo da subjetividade, simbólico,
ideológico. Em suma, o Encontro criou possibilidades de pensar, discutir questões maiores e diversas, como
identidade, valores, lutas e a ressignificação do ser mulher negra.
O Encontro buscou reunir o maior número possível de mulheres negras em todo país, construindo um lugar
de fala, trocando vivências. O objetivo delas era construir uma teia de cooperação e assim consolidar o MMN
no país a partir das próprias mulheres negras. Quando elas chamam atenção para o que as torna diferentes, as
mulheres negras estão, na verdade, falando: “Oh! Somos mais que uma mulata ou uma doméstica”. O
tratamento diferenciado pontuado por elas é o que deve ser entendido. Por qual o motivo as mulheres negras
são tratadas diferentemente na sociedade brasileira? O tratamento diferenciado reforça o pensamento do
racismo estrutural e interseccionaliza a combinação de raça, classe e gênero. Dessa forma as mulheres negras
refletem sobre o que é ser mulher negra no Brasil, por isso nesse encontro a proposta foi de analisar as fontes
desigualdades raciais e sociais e as discriminações, refletir sobre a experiências e vivências mais profundas
e os enfrentamentos.
Partimos do pressuposto de que os movimentos sociais almejam alcançar mudanças sociais e políticas a
partir das tensões sociais e dos embates políticos. Logo, poderíamos entender que a partir dos variados
encontros as brechas que estavam sendo abertas precisavam dar lugar a vozes de não vitimização e sim de
resistência, gerando uma noção pertencimento e cidadania baseadas na ancestralidade através de processos
que demarcaram e marcaram olhares de autoformação autodefinido com posturas de ressignificação e
resistências. Dessa forma, podemos também citar a linha de pensamento do editorial informativo Nzinga, que
mostra como nos anos 1970 houve muitos avanços na criação de conselhos estaduais e municipais, delegacias
de mulheres, e também com mais atuações de mulheres negras nos encontros, reuniões e fóruns e foram
significativos para a luta dos negros. O editorial ainda ponta que
O que está em discussão na realidade é o espaço em que cada um deseja atuar. E nós do NZINGA, optamos por trabalhar
com as questões da Mulher Negra. E é por acreditar nisto que estamos participando efetivamente da organização do I
ENCONTRO NACIONAL DE MULHERES NEGRAS, ideia lançada por um grupo de mulheres negras presentes ao IX
Encontro Nacional Feminista, na cidade de Garanhus (PE), em setembro de 1987. Entre os objetivos do Encontro está "...
a elaboração de propostas políticas que façam avançar a organização das mulheres negras, colocando para o mundo a
existência do Movimento de Mulheres Negras no Brasil de forma unitária e diferentes vertentes políticas". E ainda, por
acreditar nisto é que nós estaremos no dia 2 de dezembro, no Encontro Nacional, em algum lugar do Rio de Janeiro.
(Nzinga, 1988: 2)
O editorial do I Encontro Nacional, publicado na revista Nzinga, é em si mesmo um exemplo concreto de
produção de saberes situada. Ao afirmar que o encontro teria uma função ideológica antes que política, as
mulheres negras estavam formulando uma teoria própria sobre o que significa transformação social uma
teoria que não parte de categorias acadêmicas, mas das experiências de quem vive a opressão cotidianamente.
Da mesma forma, os boletins e redes de comunicação do MMN funcionaram como instrumentos de
sistematização e circulação de saberes coletivos, criando uma memória política própria que desafiava o
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apagamento histórico das mulheres negras. Esses documentos não são apenas fontes históricas são, eles
mesmos, produtos de uma epistemologia em construção.
O contexto histórico em meio à década da mulher (de 1975 a 1985, da ONU) era entre a Ditadura e
constituição do MNU, com o processo de redemocratização e o centenário da Abolição. Nesses 10 anos
também ocorreu a estruturação do coletivo das mulheres negras, que alavancaram e acionaram mecanismos
que contribuíram para o I Encontro Nacional de Mulheres Negras em Valência em 1988.
Entre as mulheres negras de vários segmentos se tinha uma enorme vontade de realizar o I Encontro
Nacional de Valência de 1988 como um encontro que atendesse às necessidades e reivindicações das
mulheres negras. Por esta razão, foi criada uma comissão para ir no evento em Garanhuns (PE). A comissão
foi formada por Sandra Bello, Antônia Inês Nolasco, Regina Café, Joana Angélica e Joselina Silva (SILVA,
2014). A comissão serviu para articular o evento, tendo como foco o I Encontro Nacional de Mulheres
Negras, pois o local também serviria para criar redes com outras mulheres de variadas regiões do Brasil. Se
o III Encontro Feminista Latino-americano e Caribenho de Bertioga 1985 (SP) já causou estranhamento em
não ter nas pautas as demandas das mulheres negras, dois anos depois, em 1987 no IX Encontro Nacional
Feministas em Garanhus (PE) não seria diferente: a pendência continuava em não abordar as questões de raça
e de racismo na pauta principal.
A autonomia, no contexto do MMN, não se apresenta como um ponto de partida abstrato, mas como uma
práxis coletiva, situada e relacional. Trata-se de uma construção histórica que emerge das experiências
vividas de enfrentamento ao racismo, ao sexismo e à marginalização epistêmica. Essa autonomia insurgente,
como propõe Ochy Curiel, rompe com os marcos coloniais e patriarcais que negaram às mulheres negras o
direito à autodeterminação, afirmando modos próprios de existir, resistir e produzir sentidos.
No MMN, a autonomia se manifesta em práticas concretas de organização, cuidado, denúncia e elaboração
política. Através de marchas, encontros, redes de apoio e produção de narrativas, as mulheres negras
constroem espaços de escuta, ação e saberes que desafiam as estruturas hegemônicas. Essa práxis não se
limita à reivindicação de direitos, mas envolve a criação de epistemologias encarnadas, enraizadas nas
experiências corporais, afetivas e territoriais das participantes.
Assim, a autonomia torna-se um eixo articulador entre ação política e produção de conhecimento. Ao
afirmar saberes situados e coletivos, o MMN tensiona os regimes de verdade dominantes e propõe uma ética
do cuidado e da resistência. Essa construção epistêmica não apenas denuncia as violências estruturais, mas
também oferece alternativas de mundo, contribuindo para a justiça social e epistêmica desde uma perspectiva
interseccional e decolonial.
O MMN se constitui como sujeito político ao disputar espaços de poder e formular uma agenda própria
frente às estruturas hegemônicas. Simultaneamente, configura-se como sujeito epistêmico ao produzir
saberes que partem das experiências vividas das mulheres negras, tensionando os regimes de verdade
dominantes e propondo epistemologias enraizadas na ancestralidade, no corpo e na resistência coletiva. Essa
dupla condição política e epistêmica é o que distingue o MMN de outros movimentos sociais
contemporâneos e o torna central para os debates sobre justiça social e epistêmica. O I Encontro Nacional de
Valença materializa essa dupla condição: foi simultaneamente um ato político de autodeterminação e um
gesto epistêmico de afirmação de saberes próprios, produzidos por e para mulheres negras.
Conclusão
Em suma, o que as mulheres negras estavam pontuando foi que o I Encontro Nacional de Mulheres Negras
foi muito mais do que um simples espaço de reunião, ali foi um lugar de reflexão profunda sobre identidade
e os desafios enfrentados pelas mulheres negras no Brasil. Um lugar que serviu para problematizar as
questões que permeiam as mulheres negras em diversos aspectos da trajetória.
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Esse evento foi fundamental, pois surgiu para dar visibilidade e voz às questões específicas das mulheres
negras, que muitas vezes eram marginalizadas tanto pela sociedade em geral quanto dentro do próprio
movimento negro. As mulheres negras enfrentam uma dupla opressão, sendo oprimidas tanto pelo racismo
quanto pelo sexismo. O encontro, portanto, representava um espaço legítimo para que elas pudessem
discutir suas demandas e criar estratégias de ação. No entanto, a reação de certos homens dentro do
movimento negro, que chamaram o encontro de "reunião de sapatonas", reflete uma visão preconceituosa e
misógina, que tenta desqualificar a luta das mulheres negras por meio de estereótipos sobre a sexualidade
delas. Ao associar o encontro a lésbicas, esses homens estavam tentando minimizar a importância do evento
e, ao mesmo tempo, reforçar um controle masculino sobre o movimento, onde a masculinidade
heteronormativa era vista como dominante.
Como vimos, a atuação dos movimentos de mulheres negras na década de 1980 representou um marco na
reconfiguração das lutas feministas no Brasil, ao evidenciar as limitações de uma agenda que, até então,
negligenciava as especificidades das opressões interseccionais. Em um cenário em que o feminismo branco,
e de classe média, não reconhecia a sobreposição entre racismo, sexismo e desigualdade socioeconômica, as
mulheres negras desenvolveram formas autônomas de organização política, baseadas em estratégias
coletivas, saberes ancestrais e práticas de resistência cotidiana.
Esses movimentos não apenas denunciaram a exclusão dentro do próprio campo feminista, como também
propuseram uma nova epistemologia, centrada na vivência e na experiência histórica das mulheres negras.
Ao articular raça, gênero e classe de maneira indissociável, essas lideranças anteciparam, na prática, os
debates que mais tarde seriam sistematizados sob o conceito de interseccionalidade. Assim, compreender as
estratégias e técnicas mobilizadas por essas mulheres é fundamental para a análise crítica das dinâmicas de
poder nos movimentos sociais e para a construção de um feminismo verdadeiramente plural e comprometido
com a justiça social.
As análises deste artigo sobre o I Encontro Nacional de Mulheres Negras, em Valença (1988), evidenciam
que a forma de organização coletiva adotada foi decisiva para o fortalecimento da consciência política, para
a integração nacional das lideranças e para a construção de propostas que visavam à transformação social. O
encontro consolidou-se como marco na mobilização política das mulheres negras, com impacto significativo
nas esferas política, educacional e cultural, sendo considerado um dos pilares estruturantes do feminismo
negro brasileiro.
Partindo do pressuposto a atuação dos movimentos sociais tem sido historicamente marcada por disputas,
avanços e contradições. No campo da luta antirracista e feminista branca, essas tensões se tornam ainda mais
evidentes quando observamos como determinadas experiências são silenciadas ou marginalizadas dentro dos
próprios espaços de resistência. Este artigo propõe uma reflexão crítica sobre a invisibilização das mulheres
negras tanto no interior do movimento negro quanto no feminismo hegemônico branco, evidenciando como
a ausência de uma abordagem interseccional compromete o potencial emancipador dessas lutas., buscamos
compreender os limites e possibilidades de construção de práticas políticas verdadeiramente inclusivas.
Ao reconhecer o MMN como sujeito político e epistêmico, este artigo reafirma a centralidade da autonomia
como práxis coletiva, situada e transformadora. A trajetória do MMN revela não apenas estratégias de
resistência frente às múltiplas opressões, mas também a capacidade de produzir saberes enraizados nas
experiências vividas, tensionando os limites das epistemologias hegemônicas.
Nesse sentido, o MMN contribui de forma decisiva para a construção de justiça epistêmica e social, ao
afirmar modos próprios de pensar, agir e intervir no mundo. A articulação entre ação política, produção de
conhecimento e ética do cuidado torna-se um legado fundamental para os estudos críticos e para as práticas
comprometidas com a transformação das realidades marcadas por desigualdades interseccionais.
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